Um sistema de castas

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Em 2017, pelo 70° aniversário da emancipação do país do Império Britânico, o Primeiro Ministro da India, Narendra Modi, proferiu o seu discurso à nação. “Peço à Equipe ‘Índia’ (os cidadãos indianos) que trabalhem para que haja uma nova Índia em 2022. (…) Uma Índia livre de discriminação por terrorismo, corrupção, nepotismo. Uma Índia limpa.”. Os valores culturais indianos privilegiam as relações familiares que permitem perpetuar um sistema de castas que Modi apelida de “veneno”.

Não será difícil perceber que o sistema de castas, no centro dos valores culturais e sociais, tenha permitido que a ocupação dos cargos políticos e as nomeações políticas estejam reféns de um modo de pensar que faz do Estado o lugar para os que detêm um grau de confiança absoluta entre si e a consequente salvaguarda das posições hierárquicas na sociedade. Também se admite a frequência de relações de sangue entre os indivíduos que ocupam cargos de poder em países que classificamos como menos desenvolvidos, onde perduram os valores tribais ou de clã.

Num país europeu desenvolvido, considerando o caminho histórico, qualquer expressão estatisticamente mais relevante de laços familiares dos indivíduos que ocupam altos cargos da Administração Pública e do governo não passaria de um fantasma do passado. A argumentação que sustenta que a filha, sogra, prima, ou quem quer que seja em grau muito próximo, lá chegou por mérito próprio ficaria bem num qualquer cartoon caricatural. E no entanto, se aqui não há castas, há uma suposta aleatoriedade que favorece, neste momento, a incidência estatística de pessoas muito meritórias da mesma família no governo. Eventualmente, poderia ser. Mas há uma racionalidade política eleitoral, e uma motivação patrimonial na manutenção do próprio poder e dos mais próximos, do político que ocupa um cargo de governo e nomeia outros que tende a favorecer o favorecimento dentro da máquina burocrática do Estado. Essa racionalidade política eleitoral é um acontecimento certo e motivo suficiente para contrariar o acaso que ocorreu no atual governo português.

Nos antípodas deste momento no mínimo estranho (e triste), os estudantes preparam uma greve mundial pelo clima. A jovem sueca de 16 anos, Greta Thunberg, tornou-se o detonador da marcha de muitos jovens que ainda não têm idade para votar. De certa forma, pela extrema juventude dos interventores, as greves às aulas não têm sido levadas com a seriedade que o facto merece. Pessoalmente estarei com eles em pensamento. A ideia de que é necessário travar de imediato a forma como são explorados os recursos naturais tem mais impacto do se poderia pensar olhando para um bando de miúdos que fazem gazeta. Para já consolidam uma consciência global, com valores muito acima dos interesses particulares e a longo, muito longo prazo. A posição defendida implica mais desenvolvimento e menos crescimento, como hoje é entendido, para todos, presentes e futuros, e uma nova forma de governância na gestão dos comuns. Os miúdos estão a construir a sua ideologia e deverão incomodar muita gente, basta pensar nas decisões políticas que se tomam ou se tomaram muito recentemente e como estão erradas. No prazo de uma legislatura, uma grande parte dos miúdos irá votar.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.