Apoios Culturais: Parte I

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Desde há muitos anos que os sucessivos orçamentos municipais têm continuado a expressar quantitativamente uma aposta clara na Cultura em Guimarães o que permitiu trilhar o caminho que todos conhecemos e não regateamos.

Os apoios à cultura materializam-se à cabeça com o contrato programa à Cooperativa “A Oficina”, depois com o orçamento próprio da divisão de cultura da Câmara, a seguir com o apoio a Associações, a organizações do setor culturais, às comissões de festas e de outros eventos e até com o apoio a produtores culturais em grupo e individuais.

Apesar disso, o debate político recente centrou-se, por iniciativa da Câmara, na localização de dois eventos realizados na cidade e de que o próprio município é promotor: as Festas Gualterianas e a Feira Afonsina. Começando pela primeira, e correspondendo ao desafio do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Guimarães de repensar as Festas Gualterianas, cumpre-me declarar como ponto prévio que, quem como eu se habituou a participar nas Festas Gualterianas desde a Rua de Santa Luzia, da casa onde habitavam os meus avós, a questão da localização das festas, sendo uma questão relevante, não é a única, nem tão pouco a principal para a generalidade dos vimaranenses.

Há, por isso, uma questão que gostaria de trazer à reflexão dos leitores: como participam, hoje, os vimaranenses nas Festas Gualterianas e como participam nas outras Festas e romarias no concelho?

É ancestral que a organização das festas e romarias do Concelho assentam sobretudo, num modelo de organização de Comissão de Festas voluntárias constituída por associações, dirigentes, forças vivas das sociedades do território em que se encontram. E também é ancestral que os financiamentos destas festas resultam maioritariamente do financiamento privado de empresas (patrocínios), de particulares (peditórios) e da capacidade das suas Comissões se organizarem para a arrecadação de receitas que mantém as tradições e as memórias coletivas. Desta forma participam no fazer e participam no ajudar a fazer. Fazer parte de uma Comissão de Festas é, aliás, uma “marca curricular” importante quando nos sentimos parte de um território, quando nos identificamos com as nossas terras.

Na verdade, até à década de 90 as Festas Gualterianas também foram assim. Festas organizadas por instituições, pela comunidade, com o apoio da Câmara Municipal. Portanto a resposta à pergunta “como participam os vimaranenses nas Festas Gualterianas?” é: como espetadores (ponto). Com exceção da marcha e dos seus obreiros que são voluntários, toda a organização é profissional. As Festas Gualterianas dependem exclusivamente do financiamento público, e da força organização profissional de uma empresa do Município de Guimarães, a Cooperativa A Oficina. Pergunto não estarão as Associações de Guimarães disponíveis para participar? E as empresas vimaranenses que altruisticamente subsidiam as Festas e Romarias de todo o Concelho não estarão também disponíveis para financiar a maior Festa do Concelho?

É que esta realidade da participação não plena pode então comportar dois problemas: o primeiro de aparentar um certo distanciamento dos vimaranenses desta tradição; e o segundo de ordem financeira, de eventual sobrecarga do orçamento municipal e já agora de desigualdade comparativa com outras festas e romarias do concelho que conheço bem.

Conheço as grandes Festas e romarias que se seguem a S. Gualter, como o S. Pedro em Azurém e na Vila das Taipas, a Nossa Senhora da Ajuda em Moreira de Cónegos, a Romaria Grande em S. Torcato, a Nossa Senhora dos Remédios em Barco, o Nossa Senhora do Rosário em Ponte. E é a todos membros das suas comissões presentes e passados que presto o meu tributo pela difícil tarefa de fazer do pouco muito. Agradeço o trabalho voluntário que têm feito para manter vivas as nossas tradições e fazer crescer estes momentos coletivos de afirmação da identidade de cada uma das nossas terras.

Creio, por isso, que no que toca a apoios municipais à cultura, à reflexão sobre as Festas de S. Gualter, talvez pudéssemos, ainda, acrescentar algumas outras reflexões. Esta é minha, e a primeira que vos deixo.

Luís Soares, 35 anos, Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Lidera a Concelhia do Partido Socialista em Guimarães desde 2018 e desempenha o mandato de Deputado à Assembleia da República e de Presidente da Junta de Freguesia de Caldelas, Vila das Taipas.