Obrigatório recordar Abril

Assinalaram-se esta semana 45 anos da Revolução de Abril. Uma data que continua a ser urgente recordar e, a cada ano que passa, obrigatório recuperar a sua componente histórica, económica, política e social.

O facto de já terem passado 45 anos faz com que quem na altura tivesse alguma consciência política – e dada a realidade da época vamos assumir os 15 anos como base aceitável – esteja hoje na casa dos 60 anos, e, em média, na última década de vida profissional ativa.

Faz também com que quem tenha motivos diretos para recordar a repressão que se vivia no Fascismo esteja hoje para lá da idade da reforma.

Serve o introito para assinalar que serão cada vez menos aqueles que, por experiência direta e vivida, reconheçam a importância da mudança política ocorrida naquela época e a grandeza das conquistas que se lhe seguiram. Esquecer estes aspetos é esquecer o nosso passado. E quem não conhece o seu passado, está condenado a repeti-lo.

Infelizmente, há já demasiados sinais em território nacional e, mais do que sinais, factos por todo o mundo, que nos fazem acreditar que há uma geração a assumir os comandos do futuro que ignoram o que esteve para trás de 1974 em Portugal ou 1945 em todo o mundo.

Não me refiro a este esquecimento para que nos conformemos com o que fomos capazes de conquistar e não almejemos aprofundar a democracia. Pelo contrário. Faço-o porque a desvalorização destas conquistas faz pela primeira vez em muitos anos que estejamos a regredir drasticamente.

Todos temos uma responsabilidade. Políticos quando não se seguem os mais básicos princípios de ética, Educadores quando desistimos de formar consciência política, Comunicação Social quando desistimos da isenção ou cedemos ao imediatismo, População em geral quando aceitamos parangonas em vez de verdade e julgamos com a facilidade que partilhamos a fotografia do momento bonito.

Vejo o espaço mediático dado a um indivíduo como André Ventura, apenas capaz de convencer os tais que não viveram antes da democracia, aqueles que já esqueceram o passado, ou os que nunca aceitaram a revolução, e fico assustado com os passos que pode estar a dar o meu país.

Mais ainda quando é cada vez mais evidente que há uma contaminação das nossas forças de segurança com este tipo de movimentos, provavelmente por identificação ideológica de menor respeito por outras raças ou culturas.

Em Guimarães, continuamos a acreditar que esta é uma realidade ainda distante e que os populismos ou poder a todo o custo estão ainda distantes. Só que isto só será verdade se todos tivermos permanente a consciência das mesas a que nos sentamos.

Recordo hoje que durante o último período eleitoral me referi à coligação Juntos por Guimarães como a Coligação PSD-CDS-e-tudo-à-sua-direita. Hoje vejo André Ventura coligado com os mesmos Partido Pró-Vida e Partido Popular Monárquico e percebo quanta razão para preocupação me acompanhava. Mesmo que, na altura, apenas por pura aritmética.

É por isso obrigatório recordar abril, tudo o que de castrador lhe antecedeu e quantas conquistas se lhe seguiram. Porque o processo de construção da democracia não conhece pausas ou cedências, em função de qualquer objetivo ou atalho no caminho.

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Paulo Lopes Silva, 31 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.