As eleições europeias

 

Se alguém pensava, legitimamente, que a atual campanha para as eleições europeias do próximo dia 26 seria minimamente esclarecedora da importância da União Europeia, sente-se, certamente, frustrado. Salvo uma ou outra intervenção, complementar de tantas banalidades usuais, tocou as questões sérias que a análise política exige neste momento tão particular.

A apreciação, que diria modelar, de dois candidatos, que adiante descreverei, os demais fizeram da sua responsabilidade o esquecimento da mesma e, qual combate entre gladiadores, fixaram-se nas questões domésticas e trataram de nos servir mais do mesmo, já cediço, e por isso mesmo nada recomendável.

As arruadas, os jantares, os dançaricos de ocasião são prestações aceitáveis há décadas na tentativa de chegar a todos e atrair os eleitores. Não pelo conhecimento, ainda que superficial da problemática europeia, o que verdadeiramente está em causa, mas oferecer ao cidadão um pouco mais do que o trivial. Da essência da temática em questão quase nada se falou. A guerrilha entre uns e outros poderá ser o que desperta os eleitores de formação política “clubística”, e para quem a Europa parece não ter grande importância, mas o facto é que é de extrema relevância para o país e para as nossas vidas. O eleitorado deveria merecer dos candidatos o esclarecimento adequado sobre os principais benefícios que a União Europeia nos traz e dos problemas que enfrenta neste tempo de grandes desafios e instabilidade a nível mundial.

De facto, não foi isto que a quase totalidade dos candidatos assumiu. Focaram-se nas teses e métodos de antanho, no insulto mais ou menos engravatado e nas suas bravatas que de útil pouco nos trouxeram.

Neste tacanho panorama ressalvo uma entrevista conjunta que dois candidatos concederam ao “Jornal de Notícias”. Na mesma, apesar de não entrarem em pormenores complexos daquilo que representa a União Europeia para os europeus, conseguiram abordar com a elegância digna de elogio e, apesar de tudo, muito mais esclarecedora do que uma arruada bem conseguida, rematada com controversas picardias dirigidas aos adversários.

A candidata Maria Manuel Leitão Marques, do Partido socialista, e Paulo Sande, do Partido Aliança, comportaram-se com uma dignidade ímpar ao longo de toda a entrevista. Depois de um introito que os levou às suas origens, partiram daí para a influência que a UE tem para o futuro da Europa e na vida de cada um de nós. Adiantaram pormenores, aparentemente comezinhos, mas que tocam no pior e no melhor do que pode determinar o nosso quotidiano coletivo. Dialogaram sobre os grandes temas com que a Europa se debate, preconizaram ideias sobre algumas das soluções a apresentar uma vez em Bruxelas. Remataram com uma crítica repleta de civismo, ao mesmo tempo que definiram, com elegância, as caraterísticas de alguns candidatos, seus adversários. Com outros não seria possível fazer tão séria abordagem.

Há lições distintivas, e não apenas na vida política, que nos tocam e que enaltecemos por tanta abertura de espírito de alguns candidatos, quando outros, por norma, são permanentemente conflituantes.

Aos dois candidatos em questão rendo-me, numa vénia, à lição de maturidade democrática que nos concederam.

Para concluir, uma nota singular sobre um pequeno, mas muito revelador pormenor com que um grupo de apoiantes liderado pelo seu candidato, cabeça de lista, se confrontou numa visita a uma feira, algures no centro do país. Como habitual iam oferecendo panfletos e trocando palavras com os feirantes quando, a certa altura, o candidato líder do grupo interpela um vendedor de roupa e pergunta-lhe, sem mais: “Amigo, diga lá como é que se poderia resolver a crise que o país atravessa?”. Com ar sisudo e rosto carregado pelas vicissitudes da vida respondeu calmamente: “A crise resolvia-se se cada um dos senhores me comprasse uma de tantas camisas que tenho para vender.”.

Pela importância que a União Europeia tem nas nossas vidas, todos devemos exercer o nosso direito de voto no próximo dia 26!

António Magalhães é licenciado em História pela Universidade do Porto, foi deputado da Assembleia da República e vereador da Câmara de Guimarães, de 1976 a 1990,  foi Presidente da Câmara de Guimarães, de 1990 a 2013, e Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Guimarães, de 2013 a 2017. Atualmente é presidente do Conselho de Curadores do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, com sede em Barcelos.