Trump e a Europa

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Reflito, como qualquer cidadão atento, sobre o pulsar de tudo o que nos rodeia e concluo, face aos conhecimentos que vou interiorizando, quão estranhas e multifacetadas mutações tomaram conta do nosso quotidiano. Ora, vejamos: as alterações climáticas são tão óbvias que só não atenta nelas quem se faz de ignaro ou troca o lucro fácil pelo seu próprio futuro e o da Humanidade. A evolução da igualdade de género, ainda que sem abrangência planetária e apesar das tantas mortes de mulheres às mãos de companheiros ou maridos, está a fazer o seu caminho. A lógica política das últimas décadas, quase que de repente, acompanha esta mudança, quiçá turbulência. Tudo isto e muito mais conjugado torna o futuro cada vez mais imprevisível, a cada dia que passa.

Hoje, face a tantas situações anómalas, merece a minha atenção a conduta do Presidente americano, cujo curriculum de trapaceiro instável vem fazendo o seu caminho. De quando em vez dá-se ao luxo de nos colocar perante mais um caso da sua boçalidade, assumindo comportamentos inaceitáveis, até inimagináveis, num líder da (ainda) maior potência mundial.

A famosa altivez dos britânicos, e que revelaram perante a União Europeia, expressa agora com o BREXIT, volatilizou-se durante a recente  visita de Trump. Deixaram-se humilhar, foram insultados perante o mundo em vários atos solenes. Na receção que, como é tradição, lhe prepararam mostrou, mais uma vez, a sua rudeza. Perante tais comportamentos do visitante, concederam-lhe um sorriso subserviente e um ruidoso silêncio. O vedetismo que o visitante sempre assumiu, tantas vezes a roçar a provocação, não mereceu dos líderes britânicos resposta compatível com a sua famosa fleuma e com a dignidade do Reino. A diplomacia de que noutras ocasiões tanto se vangloriam feneceu submissa. Exceção feita ao Mayor de Londres que, aos olhos de tantos, defendeu a “honra da nação” e demonstrou sentido de estado que a Corte optou por silenciar.

Politicamente Trump é uma figura sinistra, um trambiqueiro de milhões que se permite ultrajar o nobre conceito de cidadania. Passeia-se, arrogante, pelo mundo, com o ar de cacique à escala global, impondo os seus muitos dislates e caprichos.

Desiludam-se, porém, aqueles que julgam que ele não persegue os seus objetivos. Fá-lo com a sua lógica e o seu peculiar e altivo distanciamento de direitos e interesses terceiros em prol dos seus. Aquilo que mais deve preocupar os europeus é o saber-se que um dos seus objetivos, nesta visita, mais uma vez posto a nu, é tentar destruir a (já frágil) coesão da União Europeia. Trump sabe que a Europa passa por um momento histórico politicamente difícil e cuja salvação quanto ao seu futuro reside na capacidade e força de reforço da sua União. Trump, com tudo o que revelou publicamente durante a sua passagem por Londres, deixou bem claro quais os objetivos que, neste particular, o animam e a sua disposição de tudo fazer para concretizar a sua perfídia.

Os líderes europeus, agora com alterações significativas pós eleitorais, não podem prescindir de aprofundar a União, corrigindo erros crassos do passado tendo em consideração o grave perigo que corre caso não deem firmes sinais de coesão.

Aos futuros responsáveis dos diferentes órgãos da União Europeia urge interiorizar de que pouco vale o seu respetivo “ego” político e dos países que representam e que, perante terceiros, se impõe uma forte união em torno dos interesses comuns. Sem isso não serão capazes de dar continuidade aos valores e políticas dos pais fundadores, que devem honrar pela nobreza de princípios e enquanto figuras modelares para todos os outras potências e países do mundo. Se tal não vier a acontecer, os poderosos e imprevisíveis “Trumps” do planeta, qual espécie de génios do mal, imporão os seus ditames e abjetos conceitos, despidos de qualquer pudor e sentido humanitário. Se assim for, algo de muito preocupante poderá condicionar negativamente o nosso futuro coletivo.

Como Roger Chartier afirma numa das suas obras “fazer História é escutar os mortos”.

António Magalhães é licenciado em História pela Universidade do Porto, foi deputado da Assembleia da República e vereador da Câmara de Guimarães, de 1976 a 1990,  foi Presidente da Câmara de Guimarães, de 1990 a 2013, e Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Guimarães, de 2013 a 2017. Atualmente é presidente do Conselho de Curadores do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, com sede em Barcelos.