Porquê evocar o centenário da morte do 1º Conde de Margaride?

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Como muitos saberão este ano há em Guimarães um conjunto de iniciativas que pretendem assinalar o centenário da morte do Conde de Margaride. Em breves linhas tentarei traçar um biografia sucinta deste importante titular e explicar o motivo pelo qual foi tão importante para Guimarães.

Luís Cardoso Martins da Costa de Macedo, 1º Conde de Margaride, nasceu em Guimarães, na Casa da Veiga, a 8 de Janeiro de 1836. Era filho de Henrique Cardoso de Macedo e de sua mulher D. Luísa Ludovina de Araújo Martins da Costa. Pelo lado paterno descendia de uma família nobre que, na pessoa do seu tio Domingos Cardoso de Macedo, Capitão-Mor de Guimarães, havia ascendido à principalidade local, ocupando um lugar na vereação pela primeira vez entre 1815 e 17, sinal de distinção social e reconhecimento. Pelo lado materno descendia da família Martins da Costa, considerada uma das famílias mais ricas do Minho. A título meramente exemplificativo pode dizer-se que em 1826 a fortuna de um dos tios de sua mãe, Francisco Martins da Costa Guimarães, era estimada em mais de 2000 contos, uma soma astronómica para época. E, acrescente-se, grande parte da fortuna construída pelos Martins da Costa no Brasil acabou por recair no ramo do Conde de Margaride e dos seus parentes mais próximos (como Francisco Martins Sarmento ou Francisco Agra).

Luís Cardoso (como era conhecido) terá feito os seus primeiros estudos em Guimarães, tendo depois ingressado na Universidade de Coimbra (em 1852) onde se formou em Filosofia. Era tido como um homem bastante culto, apaixonado quer pelos clássicos da literatura quer pelos seus contemporâneos, sendo dado como bom latinista e como tradutor de Vítor Hugo.

Regressado a Guimarães e dispondo de vastos meios de fortuna cedo se terá envolvido na política local, tendo participado juntamente com seu pai na discussão de uma decisão relativa à finalização da estrada para Braga que teve lugar em 1864.

Mas a verdadeira estreia daquele que viria a ser o 1º Conde de Margaride na política local dá-se em 1870 quando assume a presidência da Câmara de Guimarães. Logo no ano seguinte é nomeado Governador Civil de Braga, o que lhe vale um voto de louvor dos seus colegas da Vereação.

Em 1872 recebe pela primeira vez a família real na sua Casa do Carmo o que, juntamente com a sua crescente influência política lhe vale, meses depois, o título de Visconde de Margaride.

Margaride manteve-se como Governador Civil de Braga até 1877, tendo sido elevado em Março desse mesmo ano a 1º Conde de Margaride. Entre 1878 e 1879 foi nomeado Governador Civil do Porto. Por esta altura muitos dos principais políticos nacionais nutriam pelo Conde de Margaride respeito, admiração e, em certa medida, dependiam da influência de Margaride para controlar politicamente o norte do país, especialmente o populoso distrito de Braga. Era ouvido pelos principais actores políticos do seu tempo em diversos assuntos relevantes. Em 1881 é nomeado Par do Reino, regressando depois à Presidência da Câmara de Guimarães (cargo que ocupou entre 1887 e 1892).

Pelo seu enorme talento político e mérito pessoal foi a figura de referência da política local até à implantação da República em 1910. Exerceu os mais elevados cargos em diversas associações e instituições vimaranenses. Recebeu em sua casa a Família Real por 6 vezes entre 1872 e 1908. Foi, por tudo isto, um político local de dimensão nacional.

É difícil resumir o que o Conde de Margaride fez por Guimarães. A sua forte influência na política nacional permitiu que Guimarães materializasse durante o seu consulado diversos projectos que há muito faziam parte das ambições vimaranenses, mas que pareciam nunca arrancar.

Durante os anos em que o Conde de Margaride dominou a política vimaranense foram abertas diversas vias no concelho e na cidade (sendo que algumas delas são ainda hoje artérias estruturantes da cidade de Guimarães), foi construído o cemitério público, foi fundada a Companhia dos Banhos de Vizela e realizados melhoramentos nas Termas das Taipas, iniciaram-se os melhoramentos na Penha, foram criados os Bombeiros Voluntários de Guimarães, o Instituto dos Surdos Mudos (um dos primeiros do género no país), foram fundadas diversas empresas (como o Banco de Guimarães, o Banco Comercial de Guimarães, a Companhia de Fiação e Tecidos de Guimarães, a Fábrica do Castanheiro, entre outras), foi realizada a Exposição Industrial de Guimarães (em 1884), deu-se a chegada do comboio a Guimarães, foi fundada a Escola Industrial, foi conseguida a manutenção da Colegiada, foi conseguido um Liceu Nacional, e, em homenagem ao seu primo Francisco Martins Sarmento, foi fundada a Sociedade Martins Sarmento onde se delinearam diversos projectos de grande importância para a cidade.

Todas estas iniciativas e projectos contaram com o apoio (directo ou indirecto) e acima de tudo com a influência do Conde de Margaride.

Creio que sem uma figura desta dimensão uma cidade como Guimarães dificilmente teria conseguido levar a cabo muitos destes empreendimentos.

A atestar aquilo que à primeira vista poderá parecer uma simples suposição está um texto do insuspeito Eduardo de Almeida (um destacado militante republicano vimaranense e Deputado às constituintes de 1911) escrito em 1919, por ocasião da morte do Conde de Margaride, do qual transcrevo um breve excerto:
“O Conde de Margaride conjugou excepcional e admiravelmente duas qualidades (…) que se encontram raríssimas e apenas em espíritos educados ou lúcidos: um tolerante e radicado amor à liberdade e uma risonha sensatez, a tenacidade de ser hábil sabendo ser justo.
(…) O seu nome anda envolvido (…) à frente – marcando trabalho, dizendo entusiasmo, invulnerável à canseira – de todos esses movimentos pelas prosperidades de Guimarães (…) Quem percorrer a colecção dos nossos jornais (…) pode reconhecer com comovida gratidão como o Conde de Margaride multiplicava a sua actividade, pugnando pelas nossas velhas regalias ou esforçando-se na conquista de novos melhoramentos (…) levando até junto do Governo, da sua Cadeira de Par, as reclamações atinentes aos nossos interesses”.

Penso que estas linhas de Eduardo de Almeida demonstram o porquê de se evocar o centenário da morte do 1º Conde de Margaride, celebrando deste modo a sua vida e obra.

Francisco Brito (Guimarães, 1983). Licenciado em História pela Universidade do Minho. Investigador do CITCEM (com interesse em história política, social e militar). Livreiro alfarrabista.