As eleições esquecidas do Vitória

Os sócios do Vitória escolhem, neste sábado, o 23.º presidente do clube. António Miguel Cardoso (lista A), Miguel Pinto Lisboa (lista B) e Daniel Rodrigues (lista C) são as opções num ato eleitoral antecipado pela demissão de Júlio Mendes, em 27 de maio, 14 meses depois de ter sido reconduzido para um terceiro mandato, no sufrágio mais concorrido da história do Vitória – bateu Júlio Vieira de Castro, com 52% dos votos, num dia em que acorreram 7.274 sócios às urnas. Esta é também a segunda eleição da história do clube com três candidatos, depois de, em 2007, Emílio Macedo da Silva ter derrotado Manuel Rodrigues e André Pereira, agora candidato a vice-presidente pela lista A.

Na história quase centenária do Vitória, esta será a 11.ª ocasião em que os sócios do clube (cerca de 11.000 podem votar no sábado) vão escolher o futuro presidente nas urnas. Esta vocação democrática exprime-se, sobretudo, no novo milénio – desde que Pimenta Machado derrotou José Arantes, em 2000, o clube nunca esteve mais de três anos sem eleições. Além disso, quase todos esses sufrágios tiveram mais de uma lista candidata, com a reeleição de Júlio Mendes, em 2015, a constituir-se como exceção.

A participação dos sócios no quotidiano do clube remonta, porém, a tempos anteriores, ora com manifestações na rua, ora com algumas Assembleias Gerais bem concorridas no Teatro Jordão e também com eleições. Antes da vitória sobre José Arantes, em 2000, Pimenta Machado teve de ultrapassar outros dois adversários nas urnas, durante a década de 1980. Esses episódios da história vitoriana raramente são contados aquando dos períodos eleitorais, e o Duas Caras relembra-os, com base no livro “Vitória: 75 anos de história”, de Raúl Rocha.

 

1984: Uma batalha de primos

As primeiras eleições com mais de uma lista candidata aos órgãos sociais do Vitória realizaram-se já na era António Pimenta Machado, o 19.º presidente do clube. Até ao 25 de Abril,  os órgãos sociais (ou corpos gerentes, como eram então denominados) eram nomeados anualmente, pelas pessoas que já tinham ocupado cargos diretivos. O primeiro esboço para uma escolha democrática dos órgãos sociais do clube surgiu em 1976; com os novos Estatutos, apareceu a figura da Assembleia Delegada, um conselho geral que seria eleito por todos os sócios para escolher a futura direção, de dois em dois anos. Nesse primeiro ano, refere o livro de Raúl Rocha, duas listas concorreram à Assembleia Delegada, embora com uma baixa participação de sócios (125 votos). Esse método elegeu Gil Mesquita para dois mandatos – entre 1976 e 1980 – e ditou a ascensão ao poder dos Pimenta Machado.

Sim, dos Pimenta Machado, porque António assumiu a presidência com os primos Carlos e Armindo a adjuntos. E foi precisamente no seio da família que surgiram as primeiras eleições disputadas no Vitória. Face a “alguns conflitos a nível das responsabilidades financeiras”, escreve Raúl Rocha, Armindo deixou a direção e candidatou-se contra o primo no ano seguinte.

O sufrágio estava inicialmente marcado para janeiro, com o prazo de entrega das listas a terminar no dia 10. Quando a sede do clube encerrou nesse dia, só a candidatura de António Pimenta Machado havia sido entregue. À noite, porém, um grupo de sócios quis entregar uma outra lista, com o empresário Manuel Rosendo Salgado a candidatar-se a presidente da direção e o então presidente da Câmara, Manuel Ferreira, a candidatar-se à Mesa da Assembleia Geral (MAG), embora não fosse sócio – o Vitória teve, por muitos anos, a tradição de ter um presidente da Câmara na liderança da MAG.

Este cenário forçou o adiamento das eleições para 17 de Março, quando António Pimenta Machado e António Xavier, rosto do PSD local e candidato à MAG, concorreram à liderança do Vitória com Armindo Pimenta Machado e Manuel Ferreira. Após um dia marcado pelas “filas de sócios que se estendiam por toda a Rua D. João I”, conta Raúl Rocha, as urnas fecharam às 20:00, com 2.794 votantes. A vitória dos Antónios foi clara: contabilizaram 1.953 votos (70%), contra 836 (30%) da lista adversária. Cinco sócios votaram em branco ou nulo. Desagradado com o treinador de então, Hermann Stessl, o recém-eleito presidente despediu-o no dia seguinte, após uma derrota caseira frente ao Portimonense (2-0). O Vitória foi sexto classificado em 1983/84. Nas três primeiras épocas com Pimenta Machado, conseguira um quinto lugar e dois quartos.

 

1988: Boa afluência às urnas em época difícil

Depois da época 1986/87, eternizada na história do clube pelo terceiro lugar no campeonato e pela chegada aos quartos de final da Taça UEFA, a equipa vitoriana de futebol esteve muito aquém de tal nível na temporada seguinte. Começou a época com o treinador René Simões, cuja saída ficou associada à célebre frase “O que é hoje verdade, amanhã é mentira”, e teve ainda mais dois nomes no comando técnico: António Oliveira e José Alberto Torres.

O Vitória terminou esse campeonato na 14.ª posição, tendo quase descido de divisão, mas concluiu o mês de dezembro de 1987 na quarta posição, atrás de FC Porto, Benfica e Boavista. Esse mês ficou ainda marcada pela inauguração do bancada Topo Norte do então Municipal de Guimarães.

O ano de 1988 chegou e Pimenta Machado voltou a encontrar oposição, em fevereiro. O adversário, desta vez, foi Eduardo Fernandes, que já tivera experiência como dirigente na Associação de Ciclismo do Minho. O mês de janeiro correu mal aos pupilos de António Oliveira e terminou da pior maneira possível, com uma derrota caseira frente ao Boavista. O jogo ficou não só marcado pela derrota, mas também pela interrupção aos 74 minutos. A troca de provocações entre o guarda-redes axadrezado Alfredo e os adeptos vitorianos, instalados no novo Topo Norte, acabou com o lançamento de pedras para o relvado. A equipa da cidade-berço, que perdia por 1-0, acabou punida com uma derrota por 3-0 e vários jogos de interdição ao Municipal de Guimarães.

Apesar das contrariedades, o presidente em exercício alcançou uma vitória expressiva no fim de semana seguinte, num sufrágio muito mais concorrido do que o anterior e que ocupa o quinto lugar na história do clube: com 5.822 votos válidos, este ato eleitoral foi apenas superado pelo de 2018, entre Júlio Mendes e Júlio Vieira de Castro (7.274 votos), pelo de 2000, entre Pimenta Machado e José Arantes (7.099), pelo de 2004, entre Vítor Magalhães e Manuel Almeida (6.780) e pelo de 2003, entre Pimenta Machado e Manuel Rodrigues (6.067). Com António Xavier novamente a seu lado, mas já como presidente da Câmara, Pimenta Machado obteve 4.018 votos (69%), contra os 1.804 de Eduardo Fernandes (31%).

Com essa reeleição, Pimenta Machado iniciou um período de 12 anos de liderança incontestada, de melhores relações com a Câmara Municipal, presidida desde 1989 por António Magalhães, e de lançamento de infraestruturas como o complexo desportivo para o futebol e o pavilhão.

Por: Tiago Mendes Dias

 

Histórico das Eleições do Vitória

 

1984 (17 de março)

2.794 votantes
António Pimenta Machado: 1.953 (69,9% dos votos totais)
Armindo Pimenta Machado: 836 (29,9%)

Brancos e Nulos: 0,2%

 

1988 (06 ou 07 de fevereiro)

5.822 votantes
Pimenta Machado: 4.018 (69% dos votos válidos)
Eduardo Fernandes: 1.804 (31%)

Brancos e Nulos: Desconhecido

 

2000 (janeiro)

7.099 votantes
Pimenta Machado: 4.493 (63,3% dos votos totais)
José Arantes: 2.573 (36,2%)

Brancos e Nulos: 33 (0,5%)

 

2003 (25 de janeiro)

6.067 votantes
Pimenta Machado: 3.979 (65,6% dos votos totais)
Manuel Rodrigues: 1.968 (32,4%)

Brancos: 101 (1,7%); Nulos: 19 (0,3%)

 

2004 (05 de junho)

6.780 votantes
Vítor Magalhães: 5.702 (84,1% dos votos totais)
Manuel Almeida: 1.041 (15,4%)

Brancos e Nulos: 37 (0,5%)

 

2007 (03 de Março)

5.681 votantes
Emílio Macedo da Silva: 3.754 (66,1%)
Manuel Rodrigues: 1.223 (21,5%)
André Pereira: 525 (9,2%)

Brancos: 140 (2,5%); Nulos: 39 (0,7%)

 

2010 (20 de março)

5.418 votantes
Emílio Macedo da Silva: 3.312 (61,0%)
Pinto Brasil: 1.721 votos (31,0%)

Brancos: 326 (6,0%); Nulos: 59 (1,0%)

 

2012 (31 de março)

5.263 votantes
Júlio Mendes: 3.134 votos (59,5%)
Pinto Brasil: 1.814 votos (34,5%)

Brancos: 254 (4,8%); Nulos: 61 (1,2%)

 

2015 (07 de março)

1.319 votantes
Júlio Mendes: 1.214 (92,0%)

Brancos: 86 (6,5%); Nulos: 19 (1,5%)

 

2018 (24 de março)

7.274 votantes
Júlio Mendes: 3.732 (51,3% dos votos totais)
Júlio Vieira de Castro: 3.390 (46,6%)

Brancos: 94 (1,3%); Nulos: 58 (0,8%)