Zangam-se as comadres

Há duas semanas surgiu uma picardia de verão entre o PS e  PSD cá da terra, a propósito dos números do desemprego.

Nem se percebe muito bem porquê, uma vez que toda a gente sabe que uns e outros têm as mesmas opções estratégicas e mal se distinguem.

O PSD talvez tente esconder o espectáculo que, por estes dias, tem vindo a público com a constituição das suas listas para a Assembleia da República, envolvendo, aliás, proeminente figura do distrito de Braga.

É seguramente para fazer esquecer do papel que PSD (e o CDS) tiveram na criação de um valor recorde de desempregados na região, no anterior governo, que deveria ser resolvido, como todos nós nos lembramos, com recurso à emigração dos melhores jovens do nosso país, conforme aconselhava o então Primeiro Ministro Passos Coelho.

Da parte do PS, será talvez para fazer prova de vida, uma vez que vive, por cá à sombra da pobre acção autárquica, contentam-se com pouco!

Uns e outros não disseram o que é necessário sobre o emprego.

Primeiro que a criação de emprego acontece, directamente, da devolução e reposição de direitos e rendimentos aos trabalhadores, conquistados a pulso, tantas vezes contra a vontade do PS. Reposição que se tivesse ido mais longe, como por exemplo no caso do Salário Mínimo Nacional, que só não aumentou mais porque PS, PSD e CDS votaram contra a proposta do PCP e porque o BE se contentou com pouco. O que explica que ainda nenhum destes partidos tenha apoiado a proposta de fazer chegar o SMN aos 850 euros, compromisso que a CDU já assumiu, sem qualquer dúvida.

Segundo, que o emprego agora criado e designadamente na nossa região, continua a ser precário e mal pago. Em boa verdade, continuamos a ter contratos a prazo e alguns muito curto prazo, ou outras formas de precariedade, e no essencial pagos ao nível do Salário Mínimo Nacional.

Em terceiro, é que o desemprego teve e tem, para além de muitos outros impactos na vida de muitos homens e mulheres, como consequência mandou muitos trabalhadores para a reforma antecipada, uma vez que eram “novos demais” para a reforma mas “velhos demais” para os critérios das empresas, com graves prejuízos para cada um deles. Particularmente trabalhadores têxteis com longas carreiras contributivas, de 40 ou mais anos, que por terem começado a trabalhar ainda meninos, tiveram grandes penalizações ficando com pensões de pouco mais de 300 euros. É por isso que assumimos o compromisso de garantir a reposição dos valores, a quem tinha na altura em que foi obrigado a reformar-se as condições que propomos agora – 40 anos de descontos ou 65 anos de idade.

Quarto, é que o combate ao desemprego também se fará com a redução do horário de trabalho para todos os trabalhadores para as 35h e essa oportunidade foi perdida nesta legislatura que termina.

Veremos, na próxima legislatura quem nos acompanhará, ou se esta troca de galhardetes não é apenas uma zanga de comadres.

Mariana Silva, 36 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.