As mulheres não fumam Charuto

Cresci numa sociedade machista, onde predominava, sem qualquer dúvida, o poder da figura masculina. Lembro-me de ouvir o meu avô dizer que apenas oferecia carta de condução aos filhos porque, apenas os homens necessitavam de ser independentes. Onde já se viu uma mulher há 50 anos atrás andar por aí toda independente de um lado para o outro no seu automóvel! Era um descalabro!

Recordo-me de ver familiares escandalizados pelo facto de verem mulheres a exercerem as mesmas funções que eles no local de trabalho e a receberem o mesmo ordenado. Mas, onde já se viu, uma mulher receber o mesmo que um homem! O mundo está mesmo perdido!

Os anos passaram, Portugal evoluiu, no entanto, as desigualdades entre mulheres e homens continuam presentes na nossa sociedade e no nosso quotidiano. Elas manifestam-se, sobretudo, em gestos, palavras ou comentários que demonstram, em toda a sua força, os preconceitos e as imagens que a sociedade portuguesa (ainda) partilha, relativamente ao que são os comportamentos “próprios” do feminino e do masculino.

De acordo com um estudo, apresentado no ISCSP — Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, o sucesso académico das mulheres portuguesas não lhes garante melhores condições no mercado de trabalho — nem em termos de salários, nem nas tipologias de contratos, nem no que diz respeito a uma taxa de desemprego menor. Ainda assim, a disparidade na taxa de emprego entre homens e mulheres diminui com o aumento da escolaridade. Nos últimos anos, a disparidade nos números do desemprego — a desfavor das mulheres — tem vindo a diminuir. Mas não porque há mais oportunidades para as trabalhadoras. Deve-se antes a uma perda de emprego mais acentuada entre os homens.

Seja qual for a categoria profissional, os homens ganham sempre mais do que as mulheres. As diferenças chegam a ultrapassar os 900 euros, quando se fala nos salários dos representantes de órgãos legislativos, executivos, dirigentes e directores. Para os trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices a diferença ultrapassa os 200 euros. Segundo o estudo “Estas diferenças exprimem fortes assimetrias de género que de forma transversal penalizam as mulheres em todas as categorias profissionais.”

Um episódio deste verão, o qual já tinha vivenciado anteriormente, mas, desta vez deixou-me a refletir acerca deste gesto que reflete tão bem a imagem da nossa sociedade. O episódio ocorreu numa festa de casamento em que estive presente. Depois do jantar, os empregados aproximaram-se das mesas oferecendo charutos apenas aos convidados homens. Pois, é claro que apenas os homens podem fumar e apreciar o seu charuto. Estava o mundo perdido se as mulheres, o sexo frágil, andassem por aí de charuto na mão!

O mundo está mesmo perdido, isso sim, porque, e “veja-se bem a pouca-vergonha”, as esplanadas do centro de Guimarães estão cheias de mulheres que, em pares ou em grupos, se sentam à noite, a beber o seu copo de vinho a sua cerveja e a fumar!

Fico horrorizada quando oiço amigas dizerem que não conseguem arranjar emprego, ou, porque tencionam ser mães, ou, porque têm filhos pequenos. E isto acontece claro, pelo facto de as mulheres, como toda a gente sabe, não se concentram no trabalho, sempre distraídas, a pensar nos filhos e no que hão-de fazer para o jantar.

Estes exemplos infelizmente estão na ordem do dia em Portugal. Estes episódios que ditam e condicionam as outras tantas desigualdades: aquelas em que as mulheres ainda precisam de provar que, além de serem mães, trabalhadoras, políticas, cuidadoras ou ativistas, afinal também conseguem beber o seu copo e fumar o seu charuto..

Tânia Salgado da ADDHG – Associação de Defesa dos Direitos Humanos de Guimarães.