A Escola somos nós

Terminou setembro, para muitos, o mês dos recomeços. É certo que para quase todas as crianças e jovens  foi o (re)começo do ano lectivo.

Estiveram muitos pais e mães com o coração apertadinho, especialmente os que deixaram pela primeira vez os seus filhos na escola. Eu incluo-me, o que me faz repensar naquilo que procuro na escola das minhas filhas.

Esta é verdadeiramente uma questão importante para mim. Há quem se aconselhe junto de amigos que já têm os filhos em estabelecimentos de ensino, outros procuram o sítio mais perto de casa ou o que facilita a logística diária, outros ainda que escolhem a escola pelo seu prestígio…

Tendo em conta que é o sítio onde elas passarão a maioria do dia durante bastantes anos, que estarão a confiadas a outras pessoas que não a família, com as quais irão conviver, viver, aprender, brincar, brigar, experienciar várias emoções: alegria, êxtase, felicidade, tristeza, frustração, medo, restauração vergonha, entusiasmo, injustiça orgulho, paixão, desilusão (…)
E que é importante para mim que as minhas filhas sejam as construtoras da sua aprendizagem, que reflictam, analisem, investiguem, planifiquem, pesquisem e tenham um papel activo na escola e na sociedade,
Para mim só faz sentido que a escola lhes permita ser e experienciar tudo isto.
Que lhes permita serem curiosas e expressarem-se livremente quer em situações ficcionadas, simuladas, quer em situações reais, quotidianas, diárias.
Que seja um local onde se sintam estimuladas e tenham prazer na aprendizagem (também) académica. Onde possam selecionar a metodologia que melhor lhes serve para aprender e para serem avaliadas. Que lhes fomente a autonomia e não a dependência de uma metedologia ou pedagogia.
Onde sejam efetivamente orientadas e acompanhadas e não comandadas.
Que a escola se saiba adaptar às suas particularidades e características e não o contrário.
Que sejam tratadas como seres únicos, especiais e importantes que são, na sua diferença, e não como mais um.
Que lhes seja permitido serem autênticas, sem medo de represálias.
Que a sua integridade seja respeitada, quando exprimem a sua opinião, desejos, vontades e necessidades.
Que sejam tratadas com equidade e dignidade, sendo-lhes reconhecido o mesmo valor que às outras pessoas que estão na escola (adultos) diariamente.
Que sejam responsáveis pelas suas atitudes e comportamentos, pelas palavras que proferem, pelo relacionamento que têm com os colegas e professores, e que sejam responsabilizadas pelas consequências naturais dos mesmos (acredito que as consequências devem ser sempre naturalmente advindas do comportamento: se fez algo que magoou o colega, deve resolver a situação com ele e não ficar sem intervalo, por exemplo).

Isto não é certamente o que se passa na maioria das escolas.
Não se passa nas escolas onde há quadros de mérito, promovendo a desigualdade e não a equidade (não partem todos das mesmas circunstâncias e critérios de avaliação).
Não se passa nas escolas onde há castigos disfarçados de aprendizagem, em vez de promoção de diálogo e de estratégias de resolução de problemas.
Não se passa nas escolas onde o tempo de exploração do exterior e da natureza é diminuto ou inexistente. Onde a carga horária lectiva é completamente desproporcional à de lazer (e estas raramente se misturam).
Não se passa nas escolas onde os professores estão cansados, sem formação para lidar com questões emocionais. Onde há pessoas que não estão auto-reguladas ou não sabem como fazê-lo, mas exigem auto-regulação de quem está a aprender a ser e a sentir.

Muitos de vocês pensarão que esta escola que quero para as minhas filhas não existe. Ela existe, sim. A escola sou eu e tu. Somos nós. É da nossa responsabilidade exigir e fazer com que as nossas crianças se sintam seguras, reconhecidas, conectadas e inovadoras.
E só quando todos nos capacitarmos disto e nos empoderarmos, é que poderemos fazer a diferença. Cada um de nós. E assim se fazem escolas que são asas e não jaulas para os nossos filhos.

Que seja um bom recomeço.

Sónia Lopes, 35 anos, é Psicóloga Clínica, Hipnoterapeuta, Coach e facilitadora de Parentalidade Consciente. Fundadora do SeMente – Centro de Desenvolvimento Pessoal, sempre se dedicou ao desenvolvimento pessoal (seu e dos outros) e hoje abraça a mais desafiante profissão de todas: ser mãe. Irá partilhar connosco a sua visão acerca da Parentalidade.