Entre “Os Maias” e os tachos

A mesma paixão que dedica a Eça de Queiroz fá-la andar de volta dos tachos à procura do ponto certo para o crocante de caramelo. Recordo o entusiasmo com que explicava os recursos literários presentes n’“Os Maias” e descubro-lhe esse mesmo brilho quando me conta a ansiedade com que aguardava pela publicação da TeleCulinária para experimentar as receitas ao sábado de manhã. Rosário Ferreira, 52 anos, é professora de Português na Escola Secundária Francisco de Holanda. Tem um horário completo ao mesmo tempo que, juntamente com a irmã Clara, toca os destinos da histórica Pastelaria Clarinha.

Trata-se de um negócio familiar com 63 anos, instalado em pleno Largo do Toural. É também palco das vivências desta urbe: acolhia ajuntamentos, proibidos pelo Estado Novo, mas tolerados à segunda-feira de manhã. As discussões políticas disfarçavam-se de conversas sobre a bola de domingo à tarde, enquanto se tomava o pequeno-almoço.

clarinhapastelaria
Avelino e Olívia, fundadores da Pastelaria Clarinha
©Direitos Reservados

A Clarinha nasce de uma história de amor. Avelino Ferreira conheceu Olívia Vieira nos inícios dos anos 50, em Famalicão, na histórica Estrela Doce, que pertencia ao irmão da jovem. O tio de Rosário era um homem com espírito empreendedor e que, com apenas nove anos, foi de terras famalicenses até Viana do Castelo. Enriqueceu e estava a expandir o negócio quando percebeu as intenções de Avelino para com a irmã. Apresentou uma proposta de abrir uma pastelaria em Guimarães ao futuro cunhado, na altura também desafiado pelo Sr. Sousa, que lhe falou do espaço vago ao lado da ourivesaria. Avelino podia casar-se com Olívia e teriam um negócio para gerir. A 27 de junho de 1953 casaram-se e a 04 de outubro do mesmo ano fundaram a Clarinha.

O negócio floresceu, com a pastelaria a recuperar doces tradicionais que muitos julgavam perdidos: “A Clarinha é responsável por divulgar a doçaria de Guimarães e por não a deixar cair no esquecimento”. É o que sublinha Rosário, enquanto lembra os tempos em que se faziam apenas três dúzias de tortas por semana, o que quer dizer que as iguarias “nunca iam para a montra porque já estavam todas vendidas”. A professora e os quatro irmãos cresceram a ver a Pastelaria Clarinha como um dos pontos de referência da dinâmica da cidade, com o pai, agora com 90 anos, a ser o “artista da pastelaria”, “com muito talento para elaborar os pormenores” dos bolos, enquanto a mãe Olívia, 85 anos, dava a cara ao balcão.

Quando os fundadores da Clarinha foram reconhecendo que a idade lhes retirava as forças para continuarem na fábrica e no atendimento colocaram a hipótese de fechar portas. Mas Rosário e Clara não aceitaram e decidiram segurar a pastelaria. Fizeram-no introduzindo algumas novidades nos produtos disponibilizados nas montras do número 87 no Largo do Toural. Bolos para celíacos (com fécula de batata em vez de farinha) e diabéticos (com fruta em vez de açúcar) e mousses para vegan (sem a utilização de ovos) – mas igualmente deliciosos – enformam a nova oferta da Clarinha. Também há pequenos-almoços de hotel aos domingos de manhã. Tradição e modernidade numa vida longa que se espera para a Clarinha.

Por Catarina Castro Abreu
Foto de abertura: Duas Caras