A singularidade do Papa Francisco

O Papa Francisco é hoje uma figura marcante, não apenas no modo como exerce o seu pontificado, mas sobretudo como se impôs, com o seu profundo fervor humanista, aos olhos de todas as outras religiões e cidadãos do mundo em geral.

Ao ser eleito, com alguma surpresa – primeiro jesuíta e primeiro não europeu a ser investido como Bispo de Roma – marcou, desde logo, o caminho que pretendia trilhar, ao explicitar o porquê de ter escolhido o nome Francisco (ser simples e dedicar-se aos mais pobres).

A partir da sua eleição, momento sempre solene no seio da Igreja, tem vindo, a pouco e pouco, a fazer jus à matriz que escolheu para calcorrear um caminho com muitos escolhos.

Na Igreja que lidera nem sempre se veem com bons olhos as intervenções inovadoras que de quando em vez assume, no sentido de enfatizar o papel da religião que professa, tal como ele a sente. Recusa com pertinência a tentação do poder, da riqueza e outras benesses, não apenas na palavra que dirige, urbi et orbi, mas na prática do seu múnus, assumindo-se como um simples sacerdote da religião que serve e que o elevou ao topo da sua hierarquia.

Possui hábitos simples, procura modernizar a vida da fé que comunga, dá uma importância vital à juventude, compreendendo que é com ela que pode alterar alguns conceitos a que a sua Igreja ainda é resiliente. Pretende com isso colocá-la na senda de um progresso que atinge a sociedade, sem abdicar das referências marcantes do catolicismo milenar.

É um Papa dos nossos dias. Preocupa-se com os refugiados de guerra, de uma forma sentida, contrariando a corrente de tantos países europeus, que insensíveis ao seu sofrimento, constroem muros reais ou burocráticos a tantos que apenas pretendem fugir de uma guerra que não poupa ninguém, particularmente as mulheres e as crianças, por quem nutre um especial carinho. Trava uma batalha dura contra a miséria e a fome no mundo.

Não esquecemos que os seus antecessores também o faziam, todavia, ficamos com a sensação de que o Papa Francisco é mais ouvido, por ser mais persistente, exigente e, muitas vezes, revelando uma coragem que todos apreciam. Nem sempre o seu afã resulta, é certo, mas torna-se numa voz incómoda para os poderosos, para os que endeusam o dinheiro e para tantos corações empedernidos que fazem da sociedade em que vivemos um paraíso para alguns e um verdadeiro inferno para tantos e tantos dos nossos irmãos em Cristo.

Assume gestos tão simples nas datas mais relevantes que a Igreja celebra que demonstram a sua sentida simplicidade e o seu profundo humanismo. Na cerimónia do lava pés, na Quinta-Feira Santa, já nos deu vários sinais da sua estima para com os mais humildes, lavando os pés a pessoas que a sociedade não rejeitará mas delas também não cuida de todo.

É um homem do nosso tempo! Sente o perigo que recai sobre todos nós proveniente das alterações climáticas. Condena o desperdício de tanta e tanta comida quando tantos irmãos nossos morrem de fome. Luta contra os abusos sexuais na Igreja que lidera e, também, fora dela. Reconhece o papel de outras religiões. Visita vários países levando aos mesmos os seus princípios humanistas, assumindo-se, assim, um verdadeiro cidadão do mundo.

Desta reflexão singela, que reconheço pouco profunda face à dimensão plural do Sumo Pontífice, há algo que me perturba e que gostaria de ver esclarecido. O Papa Francisco, sempre que aborda os temas com que a todos nos catequiza, fundamenta-os à luz do Evangelho, por mais complexos e inovadores que pareçam ser.

A sua popularidade advém dos seus genuínos princípios cristãos que tentei enfatizar neste curto e modesto texto. Os mesmos são transversais no seio ecuménico da Igreja, ainda que, aqui e ali, haja uma ou outra voz discordante, como sempre acontece.

Chegado aqui, pergunto: qual a razão que subjaz à conduta da nossa comunidade católica para não tomar para si, com a força que se lhe reconhece, a defesa de temas tão atuais que tanto preocupam a sociedade e de que o Papa Francisco faz eco?

As homilias dominicais e outros atos similares seriam um púlpito ideal para passar a mensagem atualizada que vem de Roma, de que a igreja precisa e da qual o Papa é o arauto-mor. É certo que vários dos seus membros já o fazem. Estão de parabéns pelo contributo que nos dão, ao explicitarem uma linguagem e conceitos atuais dos princípios basilares da doutrina cristã. Contudo, precisamos que se multipliquem, que se juntem à sociedade civil, sobretudo à que clama por solidariedade e proteção dos indefesos da nossa sociedade.

Se assim for, seguiremos as pisadas do Papa Francisco, libertaremos os excluídos do “inferno” deste mundo e, com o nosso testemunho assumido e sentido, trilharemos o exigente caminho que nos guiará até à casa do Senhor.

António Magalhães, 72 anos, é presidente, desde 2013, da Assembleia Municipal de Guimarães. Anteriormente, liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).