O pesadelo televisivo do passado fim de semana

No passado fim de semana (domingo) quem quis, legitimamente, desfrutar de programas televisivos dos canais que trazem até nós notícias do país e do mundo ficou privado deste serviço porque as respetivas estações de TV se deixaram capturar pelo futebol.

Já é habitual concederem ao desporto-rei um generoso tempo das suas emissões. Mas aproveitando um jogo que tinha sobre si uma carga emocional fora do comum, esses mesmos canais, e não só, acicataram ao longo da semana a dose que nos serviram, manifestamente exagerada.

O suporte para este tipo de informação e objetivos da mesma conhecemo-los bem. Há muita gente que, à falta de outro conforto moral, alimenta o seu ego com uma vitória que a torna também vencedora. Para muitos isto tem razão de ser. Apesar de tudo condescendamos. Mas será preciso tanto para alcançarem os objetivos que pretendem?

Como aperitivo, até que chegasse a hora do jogo, concederam-nos o privilégio de, durante cerca de duas horas, vermos uns autocarros a fazer o percurso a caminho da arena, sem outra motivação que não fosse a de imaginar que ali dentro iam os seus heróis. Melhor é difícil!

De quando em vez, para quebrar a monotonia das imagens, procuravam um ou outro adepto que opinava sobre a contenda que aí vinha, já com hora marcada. Os que falam sempre demonstram o seu fervor clubístico e despejam vitórias verbais com goleadas à mistura, sempre a favor do seu clube do coração.

Este efusivo entusiasmo de ocasião visa reacender o fervor de tantos adeptos que, dispersos pelo país e nas comunidades além-fronteiras, partilham um ritual muito próprio da elevação do momento, aguardando, ansiosos, o início da peleja.

O jogo em si e as imagens que nos chegam empolgam e não se discutem. Compreende-se a atitude durante o embate. É o desporto-rei no seu melhor.

Acabado o jogo, a alegria ou tristeza dos adeptos tem toda a razão de ser e a festa, ou a falta dela, naturalmente continuará. Porém, está para vir o melhor do menu desportivo. Os comentadores dos respetivos painéis vão iniciar o seu “jogo” e vamos assistir à erudita verbalização, relativa a momentos específicos do espetáculo. Durante mais três ou quatro horas de mau gosto, de desrespeito entre si, de demagogia oca, consomem tanto tempo a “patinar”, vezes sem conta, é penalti não é penalti, que o bom senso imporia que quem de direito, assumisse outro figurino para o respetivo comentário televisivo. Este deveria ser entusiástico sim, mas assertivo e não desviante.

Também alguns dirigentes com responsabilidades específicas não ajudam nada. Hoje uns, amanhã outros, fazem de um desporto tão cativante e emotivo uma arena de gladiadores verbais que não se ajusta, de todo, à responsabilidade que lhes deveria pesar sobre ombros.

Durante essas longas quatro horas ficaram muitos portugueses privados do que se estava a passar no mundo. Era meia-noite – até que enfim – lá se repôs a programação habitual.

Foi infelizmente um fim de semana trágico em vários países do globo. Mas o que é que isso importa?

Para os adeptos do vencedor, o que valeu a pena foi a vitória do seu clube do coração, tudo o mais é relativo; para os que perderam pesaram não as tragédias que abalaram o mundo, mas sim a derrota do seu clube de eleição.

Enfim. Como diria um proeminente cidadão português, já há uns anos atrás: é a vida!

 

António Magalhães, 72 anos, é presidente, desde 2013, da Assembleia Municipal de Guimarães. Anteriormente, liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).