Barack e Michelle Obama na Casa Branca

As últimas eleições para a Presidência dos Estados Unidos trouxeram à escala global um conjunto, primeiro, de perplexidades e, depois, de profundas preocupações.

Pensou-se, inicialmente, que os sucessivos dislates da campanha dos republicanos não eram para levar a sério. Foi-se relativizando o absurdo do que estaria a acontecer. Paulatinamente, algumas vozes mais avisadas deram-se conta de que o que parecia surrealista começava a ter sustentáculos nalgumas camadas da população norte-americana.

As tiradas xenófobas e outras que tais, surpreendentes por inusitadas, foram ganhando terreno e davam simultaneamente alento aos estrategas do candidato Trump.

Faltam provas inequívocas que convençam os mais céticos quanto à intervenção externa, na viciação dos resultados eleitorais. Todavia, parece óbvio, até pela conduta mais recente do candidato eleito, que algo se passou para o desfecho eleitoral já validado.

Chegados aqui, e ao contrário do que pensavam muitos especialistas, a desbragada bravata de Trump durante a campanha não esmoreceu após a eleição e teme-se que continue depois da sua tomada de posse. O mundo, porque a globalização não é apenas um chavão, vive expectante e profundamente preocupado com os efeitos da turbulência contaminadora, proveniente da liderança que será “entronizada” no próximo dia 20 de janeiro.

Dito isto, é de salutar do ponto de vista cívico e político a conduta do casal Obama, não só ao longo e na ponta final do seu mandato mas particularmente neste período de transição. Ao contrário, a postura tonitruante do clã Trump, que dá claros sinais de impreparação para o cargo que os espera na Casa Branca.

O casal Obama mantém uma trajetória a que nos habituou e que corresponde àquilo que os americanos sempre exigiram a todos quantos ocupam, por sua vontade, o edifício símbolo do poder do seu país.

Durante os seus dois mandatos, salvo no modo como conduziu a política externa herdada dos seus antecessores, a governação Obama foi relativamente consensual. Parecia-nos!

Nos últimos dias Obama tem tomado algumas decisões surpreendentes, particularmente para um naipe de compatriotas seus. A verdade é que as mesmas revelam a faceta mais sedutora do exercício do seu magistério, muitas vezes travado por um Congresso de maioria republicana de pensamento passadista e dominado pela defesa dos grandes interesses económicos. Porém, o ainda líder americano, naquilo que é fundamental num período de transição de poderes tem agido como um senhor, tentando passar o testemunho sempre com a defesa dos interesses do seu país em mente.

A conduta de Michelle Obama, uma primeira-dama de eleição, também não nos surpreende, face a um conjunto de valores que revelou ao longo dos dois mandatos como inquilina da Casa Branca.

Num momento tão conturbado quanto aquele com que veio a deparar-se nesta fase, revela toda a sua inteligência e todo o seu humanismo, atraindo a atenção dos seus admiradores e do povo americano em geral. Excecionam-se os racistas ultra que bolsam o ódio que lhes vai no seu íntimo, sempre que algo contraria o seu arcaico modus vivendi.

Como é atraente para muitos de nós apreender, num mundo em ebulição, a conduta desta Senhora desde as suas origens até ao topo da hierarquia como companheira e conselheira do seu marido!

Cultivou os valores fundamentais da família que sempre protegeu, do trabalho árduo a que se dedicou para valorar as suas qualidades intrínsecas e pugnou pela defesa dos mais desfavorecidos. Jamais renegou as suas origens. Fê-lo sempre com uma elegância própria de uma primeira-dama modelo, não naquilo que esse conceito tem de mais fútil ainda que tradicional no cargo, mas na essência que emana de um ser humano com alma grande e coração aberto. Bem-humorada, corajosa, defensora da igualdade do género e modelar para as mulheres do seu tempo. Mesmo aquelas que a criticavam num tom depreciativo renderam-se à sua postura. A todas conquistou com a sua inteligência, a sua disponibilidade, o seu saber estar, para além do seu discurso fluente e sentido, revelando uma cativante força interior.

Os americanos, e também o mundo, vão ter saudades do casal Obama mas, particularmente, de Michelle.

António Magalhães, 72 anos, é presidente, desde 2013, da Assembleia Municipal de Guimarães. Anteriormente, liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).