Rede informal de apoio começou num grupo na rede social Facebook e já conseguiu casa, mobília, roupas, alimentos e um part-time para António, um sem-abrigo que vive há dois anos em Guimarães. Solidariedade mudou a vida deste homem em apenas seis dias.
É um homem de poucas palavras e ainda não sabe como agradecer o movimento que se criou nos últimos seis dias para o ajudar a sair da rua, onde vive há dois anos. Maria João, 22 anos, trabalhava até à semana passada numa loja da Plataforma das Artes e não conseguiu deixar de reparar num homem que todos os dias pára pela praça daquela infra-estrutura cultural. “Não importunava as pessoas e aceitava o que lhe iam dando ao longo do dia”, dá conta a jovem ao Duas Caras. Até que na semana passada foi falar com esse homem e descobriu que se chama António, que tem 49 anos e que conta já dois anos a viver na rua.
Ana Magalhães, 26 anos, gere um grupo na rede social Facebook com anúncios de emprego para Guimarães com cerca de 30 mil membros. Foi uma esperança para Maria João, que, ao conhecer a história de António, contactou a gestora do grupo no sentido de conseguir um emprego para o ainda sem-abrigo. Ana ficou sensibilizada com a história: abriu uma exceção à regra e lançou um apelo para ajudar António no grupo que administra (que serve exclusivamente para a procura e oferta de emprego).
O post registou várias partilhas e comentários, o que motivou Ana a lançar na passada quinta-feira, 02, um outro grupo chamado “Vamos ajudar o Sr. António”, que neste momento conta com mais de 2700 membros. Todos os dias vai fazendo as atualizações dos objetivos alcançados para “prestar contas” a quem está disposto a ajudar. Ana Magalhães garante ao Duas Caras que fez de tudo para confirmar a história de António, nomeadamente junto da advogada oficiosa que está a tratar do diferendo laboral que mantém com a última empresa com a qual trabalhou.

Casa, comida e roupa lavada
Neste momento, graças ao movimento de solidariedade que se gerou no grupo do Facebook, já foi possível conseguir um local para António ficar. Está a precisar de uma pintura e, para esse trabalho já foram mobilizados os escuteiros do agrupamento 566 de Creixomil. Duas pessoas disponibilizaram as suas garagens para guardar os bens que têm sido recolhidos: roupas, produtos de higiene, alimentos não perecíveis e até mobília.
Há um estabelecimento comercial que já solicitou a ajuda de António para pequenas tarefas em troca de refeições e um montante simbólico, enquanto não encontra um trabalho mais estável. Os dois anos de rua deixaram marcas físicas em António e já foram disponibilizados os serviços de uma esteticista, cabeleireiro e dentista, da empresa Sorriso Modelo. Uma escola de condução da cidade, a S. Gualter, tratou da burocracia para a revalidação da carta de condução de António. No café Medieval, no centro histórico, está uma lata para recolher donativos.
Estes donativos e todas as ajudas monetárias que têm sido disponibilizadas vão para um cartão pré-pago (Entidade: 21312; Referência: 116 037 739). Em apenas 24 horas já foi possível reunir 100 euros. Todos os extractos estão a ser publicados para que quem doa o dinheiro possa saber como é que estes montantes, direccionados para o pagamento das despesas básicas de António, são gastos.
O apoio que conseguiram até agora ainda deixa Ana e Maria João atónitas: “nunca pensei que chegasse a este ponto”, diz a mais jovem.
De repente, deu-se este movimento enorme e é incrível como há tanta gente disposta a ajudar, de todas as faixas etárias. Há quem consiga dar roupa usada, há quem se ofereça a pagar um mês de renda [100 euros] e toda a ajuda é bem-vinda”, resume Ana.
“Podia acontecer a qualquer um de nós”
O que mais motivou estas jovens a avançar com o grupo de apoio foi a empatia: “o que aconteceu ao sr. António podia acontecer a qualquer um de nós ou a qualquer pessoa da nossa família”, pontua Ana Magalhães. António ficou sem trabalho há dois anos, depois de um processo de divórcio que o fez mudar de cidade e rumar ao Porto. É lá que está sinalizado pela Segurança Social porque a morada ainda é a de um albergue onde estava instalado.
“Neste momento só quero voltar a ter um trabalho para levar uma vida digna”, refere ao Duas Caras. Dorme na Estação da CP e cedo desce para a Plataforma das Artes onde vai recebendo de quem passa a ajuda monetária para as refeições e os banhos na Casa dos Pobres de Guimarães, atualmente Lar de Santo António que dispõe de diferentes valências de apoio social, entre elas a cantina social e um balneário público. Desde a passada quinta-feira que esta rotina sofreu uma alteração: em apenas três dias as dinamizadoras do grupo do Facebook conseguiram fazer uma escala de dez voluntários que todos os dias levam o jantar a António.
Não tem direito ao Rendimento Social de Inserção devido a um litígio laboral. António trabalhou em limpezas para uma empresa de Guimarães para suprir as férias dos funcionários. Terminado esse período, foi dispensado mas a empresa alega que foi António que se despediu. Por supostamente ter recusado trabalho, não tem direito a este apoio social.
Durante 20 anos foi motorista e os tempos livres passava-os em bandas e orquestras filarmónicas onde tocou trombone de varas e tuba. Questionado sobre a razão para estar na cidade-berço em vez de viver no Porto, onde é seguido pela assistência social, António diz que “em Guimarães tenho ajudas que não consigo em mais lado nenhum”.
