As praxes académicas

Está na ordem do dia, por vontade do Ministro do Ensino Superior e por um trabalho de especialistas recentemente publicado, a problemática das praxes académicas.

O tema ganha dimensão periodicamente e sempre que são conhecidos e veiculados, pelos media, abusos que, sem qualquer justificação plausível, são cometidos num ou noutro estabelecimento de ensino superior.

Convém recordar que a origem das praxes académicas não tem nada que as recomende. A sociedade evoluiu, o ensino massificou-se e o conceito elitista das mesmas não tem já suporte social maioritário.

Há, porém, ainda Universidades e Institutos Politécnicos que dão sinais claros de uma aceitação, ainda que mitigada, da praxe académica. Basta ver as percentagens do estudo atrás referido.

Alguns Srs. Reitores ou Srs. Presidentes de tais estabelecimentos de ensino não conhecem, estou certo, ao pormenor, os desmandos praticados que inferiorizam aqui e ali muitos dos pupilos do meio académico.

Certos caloiros sentem tais práticas como severamente ultrajantes, também por serem presenciadas por todo o grupo. Os traumas que resultam dos exageros, sem lógica entendível dentro do conceito de integração dos novos universitários, deixam mossas físicas e psicológicas em muitos deles, dificilmente esquecíveis. Veja-se a percentagem (67%) de antigos alunos que, no estudo em questão, reconhecem terem sido vítimas de abusos vários.

Enquanto tivermos presente a tragédia da praia do Meco, pese embora toda a nebulosa que a encobre, dificilmente a nossa sociedade aceitará comportamentos desviantes que vai observando e vai associando à morte daqueles jovens.

É uma questão de higiene mental travar tais práticas praxistas, quer pelo burlesco, quer pelo desfasamento temporal, tão absurdo das mesmas.

Dinheiros públicos, ou benesses similares que têm a mesma origem, para práticas caducas e sem contemporaneidade não se justificam de todo.

Urge encontrar alternativas verdadeiramente integradoras dos jovens universitários, voltadas para a conceção humanista que a sociedade deles espera, como contributo que o país de si reclama.

A Europa a que pertencemos tem ainda, num ou noutro país, uma postura já residual quanto às praxes académicas, quando comparados connosco. Entre nós, se tal pretendem invocar os defensores das praxes, a tradição não justifica tudo. Antes pelo contrário.

Felicito o Sr. Ministro pela sua iniciativa. Felicito os autores do estudo que despoletou, de novo, a abordagem de um problema sério e, ainda, aqueles que o divulgam. Estes contribuem para a sensibilização dos cidadãos em geral, o que se aplaude.

Ao Sr. Ministro direi que está no caminho certo, mas terá ainda que ultrapassar muitas barreiras para que a consecução dos seus objetivos seja coroada de êxito.

Certamente, um pensamento bem estruturado sobre o tema estará na origem da sua iniciativa e, por isso, mais tarde ou mais cedo, a mesma obterá o êxito que a sociedade em geral reclama. É também um ato de cidadania no seu melhor.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).