Domingo há cortejo, há Creixomil em estado puro!

Domingo há cortejo em honra das festas de Nossa Senhora da Luz. Creixomil, 14h00, desde a cooperativa até ao monte onde, reza a lenda, D. Afonso Henriques pediu à Senhora mais uma hora de luz para conseguir vencer os espanhóis na Batalha de S. Mamede, mandou após a conquista erguer a capela de Nossa Senhora da Luz. Domingo há cortejo, licitações, orgulho, brio… Há Creixomil em estado puro!

No dia em que Creixomil comemora a Santa, o dia religioso, 02 de fevereiro, a freguesia assume contornos de espiritualidade. Vêem-se velas nos beirais das portas e janelas, colchas nas varandas, flores pelo chão. E o frenesim é intenso, embora quase silencioso.

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Cartaz dos festejos deste ano

Na Pascoela, fim de semana a seguir à Páscoa sempre reservado para que Creixomil festeje a Santa, há grandiosidade, arcos iluminados e coloridos a coser a silhueta das ruas, música gravada e música ao vivo, comes e bebes e cerimónias religiosas como a procissão de anjinhos que já teve mais de 100 figurantes e faz as mulheres da freguesia levantar-se de madrugada para fazer o tapete de flores que servirá de chão à Virgem.

E algures entre o dia religioso e a festa da Pascoela, há cortejo em honra de Nossa Senhora da Luz. Creixomil despe-se para ser puro, para ser verdadeiro, para ser Creixomil em estado bruto num dia que serve para angariar fundos para as festas da Pascoela. Até quem pouco ou nada liga à fé, neste dia, não por vergonha mas por querer fazer parte de um qualquer espírito de comunidade que aguarda o ano todo por se manifestar, partilha, participa, oferece coisas, comida, felpos e panos da confeção, fruta da árvore do quintal lá de casa, animais da capoeira, broas que chegam ainda quentes cozidas nos fornos das lavradeiras da freguesia, vinho da propriedade, copos com publicidades que sobram nos cafés, jogos de cama pró enxoval, produtos de beleza de marca e qualidade que vieram do cabeleireiro, bolos e bolos, muitos bolos, feitos de madrugada, ventoinhas, fritadeiras, muitos e muitos artigos de fábrica … O restaurante manda uma pingadeira com cabrito que nas licitações é “rei” e arrecada o maior número de pedidos. Às vezes há porcos vivos oferecidos pelo lavrador de Eiras. A lenha costuma dar a Sra. Dona da Quinta de Laços.

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Desfile está agendado para as 14h00

E sai tudo à rua…

Muitos carros… Da Boucinha, do Salgueiral, do Alto da Bandeira, da Cruz de Pedra, do Bairro dos Machados, do Rio de Selho, dos Cutileiros…. E vai o cortejo com o rancho a enfeitar a dureza dos tratores e das carrinhas de caixa aberta. Creixomil em estado bruto!

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O leilão comunitário coroa o final da festa

Domingo, no monte da Senhora da Luz, em Creixomil, Guimarães, vizinhos que falam uma ou duas vezes ao ano, incluindo aquela vez em funerais ou missas de sétimo dia, ajudam-se nas licitações e carregam cabaças alheias rua abaixo para deixar à frente de portões que desde a infância não transpõem. Vizinhos. Com olhar cúmplice, entre gargalhadas pintadas de tinto, daquele vinho verde que pinta os lábios e a palma das mãos, arrematam colchas para a cama ou molhos de chouriças. Fazem-no com o mesmo fervor com que cantam na noite de dia 02 de fevereiro ou com a mesma euforia com que vivem o espetáculo principal da noite grande da festa na Pascoela. No dia do cortejo/leilão há Creixomil comunitário, Creixomil mutualista, Creixomil em estado puro!

Texto e fotos: Paula Fernandes Teixeira – Creixomilense