Os dias do Ambiente

As modas são isso mesmo: modas. Hoje o que é moda será uma parolice amanhã. Quem não se envergonha de cada vez que se lembra das vestimentas dos anos 90? Ora, quem se envergonha quando se recorda que a industrialização nos obrigou a poluir sem que isso fosse visto como um crime ambiental, sem que isso fosse visto como o fim da praia fluvial tão agradável e tão próxima de casa?

Outros tempos. Era necessário criar emprego, era preciso construir casas e encaminhar os esgotos para algum lado, era necessário evoluir. Poluir em nome da evolução? Sim, pode ser.

Nos dias de hoje é moda deixar de poluir. Ouvimos falar na sustentabilidade ambiental, no respeito pelo ambiente, exigimos olhos bem abertos a cada cidadão que deve denunciar, plantamos árvores bem pequeninas porque um dia serão grandes e servirão para nos sentarmos à sua sombra a contarmos a história que escreveremos aos nossos filhos.

Todos estamos empenhados em contribuir para um mundo ambientalmente melhor, todos queremos respirar ar puro e todos sabemos reciclar. Paramos o carro no “Dia Sem carros” e somos até capazes de andar de transporte público em Barcelona nas viagens de Verão, mas aqui na terra por acaso não sabemos os horários, nem os preços de cada viagem.

E lá continuamos de mangas arregaçadas, galochas calçadas e ancinho na mão, toneladas de lixo são tiradas dos nossos rios, pois essa história de que foram investidos mais de 200 milhões de euros para despoluir o Rio Ave é uma falácia. Todos sabemos que mostrando à população o lixo que sai das nossas linhas de água com as nossas próprias mãos é “meio caminho andado” para a consciencialização.

O facto do país ter gasto mais de 200 milhões de euros num projecto que não teve sucesso não tem qualquer importância perante tamanho amontoado de pneus, garrafas, botas, e quem sabe o que mais é possível sair do fundo do rio.

Assim se transmite a mensagem de que não é correcto deitar lixo ao chão, nem ao rio. Assim se esquecem politicas de mudanças reais de comportamentos. Assim nos esquecemos que as pessoas voluntárias que entram na água e ficam sensibilizadas já o estavam. Assim queremos deliberadamente deixar para trás ou deixar cair no esquecimento os esgotos domésticos que ainda são encaminhados para o rio e quem sabe deixar aquele empresário a “assobiar para o ar” enquanto pinta as nossas águas de diferentes cores.

Quando abrirmos os olhos e percebermos que os cotonetes continuam a ser deitados nas sanitas, os óleos usados continuam a ser deitados na banca da loiça, o lixo continua a ser lançado pela janela do carro e as empresas continuam sem serem devidamente punidas por poluir o que é de todos, já terá passado de moda a preocupação com o ambiente. Será tarde, outra vez!!!

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009 e eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.