A encruzilhada da União Europeia

Os mais avisados cidadãos da Europa que vão acompanhando o dia-a-dia do que por cá se passa, vivem sobressaltados com o seu declínio, tendo em conta as suas responsabilidades no contexto das Nações.

O Brexit é o último e o mais evidente sinal das fragilidades do velho continente, começando a ser posto em prática, já a partir do próximo dia 29 de março. Preveem-se dois anos de duras negociações e espera-se que a União Europeia não ceda ao cinismo da Sra. May. A atitude da líder inglesa, primeira-ministra do Reino Unido, contrasta com a dimensão de um seu saudoso antecessor, Churchil, que sacrificou os ingleses, em prol de um continente que sabia fundamental para a projeção deste na estratégia geopolítica internacional.

A Europa deixou-se cercar por perigos eminentes que não soube evitar, ao mesmo tempo que se vai assistindo a um processo interno de degradação que deveria travar. O seu isolacionismo acentuou-se com a globalização, incentivada e consentida pelos seus mais poderosos países, em detrimento dos interesses dos mais frágeis.

Hoje é fácil concluir que quem ganhou com a globalização foram os países asiáticos e quem perdeu foi a Europa e os EUA. Atarantados e impotentes para contrariar o que se passa à sua volta, mandam às malvas o ideal altruísta que deveriam cultivar. Os líderes europeus encontraram então uma variante: conceberam o seu espaço como um negócio e não como o sonho de vivermos juntos, assumido pelos pais fundadores, na década de cinquenta do século passado.

A evolução da condução dos destinos da Europa, ao perder progressivamente líderes de craveira mundial, conduziu-nos à governação que agora nos fragiliza. Esta hostiliza, penaliza e insulta os países economicamente mais débeis, e sub-repticiamente primeiro e agora as escâncaras, furtam-nos a soberania a cada dia que passa.

O projeto europeu é um projeto de liberdade e também de responsabilidade, mas para todos e não só para alguns. O nosso passado, não sendo rico em cifrões, assenta em valores que exigem respeito. Queremos discutir os problemas que nos atingem, no seio da comunidade, em plano de igualdade e não à sombra da subserviência com que tantos se comprazem. A ancestralidade da nossa história e a de outros países europeus não é um capital menor, como nos querem fazer crer, face ao capital que outros acumulam na avidez do lucro fácil, retirado ao labor dos mais frágeis.

Se tudo isto não for tido em conta, a União pagará caro a arrogância dos seus líderes atuais, que não estão à altura da consecução dos objetivos traçados pelo projeto que nos trouxe até aqui. Estamos isolados e os cidadãos europeus não sabem, porque quem tinha obrigação de os esclarecer, enfatizou o fútil e secundarizou o essencial.

A Europa só sobreviverá perante os tubarões que a globalização gerou, se se mantiver unida e solidária. Os seus líderes têm de interiorizar que, a curto prazo, podem ter de defender-se de terceiros, apenas com os seus próprios recursos. Tal só será possível se no seio da União não houver filhos e enteados, num projeto nascido para curar as feridas de uma guerra sangrenta e preparar o progresso a que todos aspiramos.

A próxima cimeira da União, que se reveste de capital importância face ao apertar do cerco que se avizinha, levou um atento parlamentar europeu a por o dedo na ferida, quando após a sua brilhante intervenção terminou assim: “na próxima cimeira da União em Roma, exige-se que se fale mais do que a Europa nos deve do que aquilo que devemos à Europa”.

P.S.: Estava eu a terminar este conjunto de considerandos, quando recebemos a notícia dos insultos xenófobos, do Sr. Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, dirigidos aos países do sul da Europa. Esta figura secundária da política europeia, incapaz de se fazer eleger no seu próprio país, mas pretendendo manter o lugar de burocrata em Bruxelas, à ordem dos mais sectários líderes da União, resolveu agradar-lhes. Então, bocejou inqualificáveis impropérios contra os igualmente respeitáveis países do sul da Europa que integram a União.

Um dirigente europeu com a falta de nível que o Sr. Dijsselbloem evidenciou, não tem legitimidade de se classificar como social-democrata, tão básico é o seu civismo e tão grande é a sua ignorância política, já que desconhece a doutrina do próprio partido a que diz pertencer. Se tiver um pingo de vergonha, mete a viola ao saco e vai para casa estudar o ABC da verdadeira social-democracia. Se o fizer, prestará um bom serviço à União Europeia e não contribuirá para envergonhar, ainda mais, o meio onde vegeta.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).