Os bilhetes para Chaves

Este fim de semana, o Vitória esteve presente na Final 8 da Taça de Portugal em Basquetebol (não ganhamos, mas eles merecem todo o nosso apoio. Fernando Sá é o maior. Não nos deixe nunca, por favor) e eu tinha elaborado uma ode para todos aqueles que trabalham arduamente durante todo o ano para que, literalmente, as modalidades do Vitória existam.

Aceitem o meu singelo pedido de desculpas pelas vezes que não vos apoiei devidamente e recebam toda a minha admiração pela forma maravilhosa como honram a camisola do Rei. As modalidades estão cheias de títulos e conquistas e nós não fazemos fila para as ir apoiar.

Voltando ao assunto que hoje me trouxe aqui e que está na cabeça de todos os vitorianos…
A ida a Chaves tem sido planeada, por mim, desde que o Chaves subiu de divisão (não sei se se lembram, mas nós ainda vamos a Chaves para o campeonato). É rara a viagem de carro em que o meu tio não mencione o quão incríveis eram as deslocações a Chaves: a interação com os adeptos da casa, os comes, os bebes, a festa, a união… Na minha cabeça a ida a Chaves é uma espécie de mini-Jamor. Foi, portanto, com muita felicidade que vi que, se passássemos, encontraríamos o Chaves na meia-final. Começamos imediatamente a fazer planos para ir a Chaves ver o Vitória a apurar-se para ir ao Jamor…

A possibilidade de não ir ao jogo por falta de bilhete nunca nos passou pela cabeça, mas a realidade é que aqui estamos, a pouco mais de uma semana do jogo, sem bilhetes e irritados com o mundo.

Eu sei, eu sei, estamos todos irritados, mas precisamos de parar um minuto e pensar. Parar para perceber o que se passou e não apenas criticar pelo simples prazer de criticar.

O Grupo Desportivo de Chaves enviou 2000 bilhetes para Guimarães. O estádio Municipal Engº Manuel Branco Teixeira tem lotação de 8000 pessoas. O Chaves tinha a obrigação de ceder 900 bilhetes, mas devido às boas relações entre os dois clubes resolveu ceder 2000.

Os 2000 bilhetes foram colocados à venda na quinta-feira às 9h30 no Atendimento ao Associado no Estádio D. Afonso Henriques. Devido ao número reduzido de bilhetes, cada sócio podia comprar dois bilhetes desde que apresentasse dois cartões de sócio com quotas em dia. Em duas horas os bilhetes tinham esgotado e eu (tal como milhares de vitorianos) estava de rastos…

As redes sociais encheram-se de indignação contra tudo e contra todos depois de a grande maioria de nós ter ficado sem bilhetes, mas acho que, agora que os ânimos acalmaram, é importante fazermos uma reflexão sobre o que se passou.

Comecemos pela afirmação dos “sócios de ocasião” que tantas vezes foi utilizada: o Estádio D. Afonso Henriques tem uma média de assistência de 16 mil pessoas por jogo. Mesmo analisando pelo pior dos cenários – de que várias pessoas entram com convites -, vamos especular (isto não seria necessário se continuássemos a ter acesso a estes números no site do clube como acontecia até recentemente) que dessas 16 mil pessoas, 10 mil têm lugar anual e quotas em dia (precisam delas para entrar no estádio). Seriam 10 mil pessoas interessadas em adquirir 2 mil bilhetes. É uma meia-final da Taça. É normal que as pessoas queiram ir. Quando a procura é maior que oferta é normal que haja pessoas que fiquem sem bilhete.

Não foram adeptos de ocasião, como foram várias vezes apelidados, que conseguiram tirar bilhete. Foram sócios com lugar anual e quotas em dia que vão apoiar o Vitória, pelo menos nos jogos em casa e que têm todo o direito de o ir apoiar fora (e que tiveram a possibilidade de estar no estádio das 6h00 às 10h00/11h00 de uma quinta-feira).

Existe a especulação de que foram reservados (ou pelo menos colocados de lado) bilhetes para as claques e isso também criou muita confusão.

E se foram? São eles que correm este país de lés a lés a apoiar o clube. São eles que estão lá nos bons e nos maus momentos. Eu sei que provavelmente há pessoas que também o fazem mesmo sem pertencerem às claques. Eu gostaria de encontrar uma solução para que estas pessoas também tivessem os mesmos benefícios, mas não tenho em mim todas as respostas. Eles estiveram com o Vitória em todos os estádios e eu, infelizmente e por vários motivos, não – e tenho de respeitar esse facto.

O que mais podia ter feito a Direção do Vitória? Sinceramente, nada!

Eu provavelmente teria colocado os bilhetes à venda no sábado para dar a mesma oportunidade a todos os sócios de os adquirirem, mas muito provavelmente quem trabalha ao sábado também se ia queixar e em vez das pessoas irem para o estádio às 6h00 da manhã passariam lá a noite e acabaríamos na mesma situação (note-se que o Chaves colocou os bilhetes à venda no mesmo dia).

Honestamente, eu não fui para a fila porque não moro em Guimarães. Foram por mim. Implorei para irem mais cedo, mas não puderam (e eu tenho de compreender). Eu não tenho bilhetes. Eu já chorei, já disse palavras que não fazem parte do meu vocabulário usual (fora do estádio) e já tentei contactar amigos dos amigos dos amigos dos conhecidos em busca de bilhetes em Chaves.

Sim, eu estou irritada e seria muito mais fácil criticar pelo simples facto de criticar e atirar todas as minhas frustrações para a direção, para as pessoas malucas que foram para o estádio às 6h00 da manhã ou para o Chaves por não ter um estádio maior, mas por vezes é preciso deixar acalmar a poeira e perceber que estou irritada porque não vou poder estar naquele estádio a ver o NOSSO Vitória a apurar-se, pela sétima vez na sua história, para a final da Taça de Portugal no Jamor (e acreditem que o Vitória vai apurar-se porque eu tenho de pegar no meu afilhado ao colo quando vencermos a Taça e ele está quase do meu tamanho – é agora ou nunca).

Estou irritada, triste e desiludida, mas a Taça de Portugal é a festa da família por isso dia 4 de abril às 12h30 eu vou sair do trabalho (eu dei-me ao trabalho de colocar o Pedro Martins a pedir formalmente para que eu fosse dispensada do trabalho nesse dia… acham que vou ficar em casa?), vou conduzir até Guimarães, pegar a minha mãe e o meu tio e rumaremos a Chaves para viver a festa da Taça. Muito provavelmente ficarei cá fora, mas não vou deixar de viver este mini-Jamor (pessoal de Chaves eu estou à espera de receções como as de antigamente) só porque não tenho bilhete.

Vemo-nos por Chaves?

P.S.: Lembrem-se que o Vitória volta a Chaves no dia 15 de Abril às 16h00 para continuar a lutar (esperemos) pelos lugares europeus no campeonato. O mini-Jamor estará lá na mesma e o Vitória continuará a precisar do nosso apoio.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.