Cinco anos de Júlio Mendes no Vitória: breve análise

A 11 de Abril de 2012 Júlio Mendes tomava posse como presidente do Vitória Sport Clube. A sua candidatura propôs ruturas com o passado e era baseada em três vetores essenciais:

– a recuperação financeira,

– a construção de uma SAD,

– a construção de um modelo desportivo assente na competência para a formação, captação e valorização de jovens atletas.

Cinco anos depois acho que vale a pena “perder” um pouco de tempo a analisar o que fez como presidente do Vitória.

Quando chegou ao Vitória, como presidente (Júlio Mendes foi vicepresidente para o Marketing na Presidência de Emílio Macedo da Silva), encontrou um Vitória que nós (todos os vitorianos, incluindo ele próprio) permitimos que destruíssem, um Vitória desarrumado, com um passivo de mais de 24 milhões de euros, salários em atraso e com resultados desportivos que ficavam muito aquém daquilo que os vitorianos desejavam.

Começo pela recuperação financeira: esta direção conseguiu, em quatro anos (ainda não são conhecidos os valores desta época) reduzir o passivo do Vitória de 24 milhões de euros para cerca de 10 milhões e 800 mil euros (esta diminuição de mais de 50% do passivo merece ser valorizada e nem sempre o fazemos).

A redução das receitas provenientes da quotização, na ordem dos 10.4%, para cerca de 1,72 milhões de euros na época anterior é deveras preocupante (ter-se-á devido exclusivamente aos resultados desportivos? Acho que seria importante sentarem-se e analisarem o que foi ou não foi feito para fidelizar os atuais e atrair novos sócios).

A possibilidade de tornar o Vitória numa SAD foi algo que sempre assustou os vitorianos. O medo de “qualquer um poder chegar aqui e fazer o que quiser com o nosso clube” sempre assombrou as longas Assembleias Gerais em que o tema foi discutido, mas a realidade é que no momento que escolhemos Júlio Mendes como novo presidente sabíamos que seria apenas uma questão de tempo até que tal se tornasse realidade.

As soluções naquela altura eram escassas e tivemos de encarar a criação de uma SAD como o único caminho. Não para salvação financeira do clube, mas para a sua sobrevivência. Em abril de 2013 a SAD foi constituída e o clube ficou com 40% do capital.

Sinceramente, eu era uma das pessoas com “medo do bicho papão” que era a SAD. Votei sim na sua formação vendo-a na altura como o único caminho para que o Vitória sobrevivesse, mas quatro anos depois não consigo encontrar razões para fundamentar a minha desconfiança. Tornar o Vitória numa SAD apenas permitiu a entrada de investimento de que tanto necessitávamos e, pelo menos até ao momento, não encontro nenhuma contrapartida na sua formação (a área financeira não é, de todo, a minha área de intervenção: se existe alguma coisa e eu não me apercebi, sintam-se à vontade para me elucidar).

O modelo desportivo assente na formação foi efetivamente desenvolvido e implementado e está a dar frutos.

Na época de criação das equipas B o Vitória estava numa grave crise financeira e começar uma equipa B acarretava mais custos. Acredito que a decisão de criar a equipa B não tenha sido a mais fácil, mas é, com certeza uma aposta ganha. A equipa B acaba por descer de divisão na sua primeira época (e voltar a subir na época seguinte), mas cumpre em plenitude o seu objetivo principal: tornar-se numa verdadeira fonte de talento para o plantel principal.

Miguel Silva, Paulo Oliveira, Josué, Cafú, João Pedro, Ricardo Pereira, Bernard e Hernâni são sete bons exemplos daquilo que tem sido o projeto da equipa B do Vitória.

É com uma equipa assente na formação que o Vitória conquista o maior feito da sua história: a Taça de Portugal. Independentemente de gostarmos ou não desta direção nunca nos podemos esquecer que foi ela que nos deu a tão desejada Taça de Portugal (e que se tudo correr bem, nos dará a segunda).

Esta época, independentemente dos bons resultados desportivos, questiono-me se o plano foi o mesmo. Este ano parece haver uma clara valorização dos jogadores emprestados o que parece quebrar um pouco com o projeto que vinha a ser criado. Por vezes é preciso dar um passo atrás para se dar dois para a frente. Pode ter sido uma necessidade fazê-lo, mas espero que voltemos a valorizar a nossa formação (sim, a ideia de ter uma equipa em que mais de metade dos jogadores são emprestados assusta-me. Está a funcionar, mas assusta-me).

Júlio Mendes afirmou na Gala dos Conquistadores que o “projeto está praticamente na sua fase terminal, do que chamamos de primeira fase. Foi, no fundo, o resgate daquilo que era a situação que encontrámos. Agora, estamos numa fase de crescimento”.

Foram cinco anos produtivos. Há decisões com as quais concordo e outras com as quais discordo por completo, mas respeito e valorizo o trabalho que Júlio Mendes e a sua equipa têm vindo a fazer.

Continuo a achar que Júlio Mendes é demasiado passivo em relação aos problemas do clube. Por vezes sinto necessidade que o presidente que representa o meu clube saiba dar “dois murros na mesa” e mostrar que somos uma potência do futebol nacional, somos um clube com História e que merecemos respeito (infelizmente sofro do mesmo mal que o nosso presidente e percebo que é horrível querer agradar a todos e não querer causar problemas, mas por vezes é necessário – Caro Júlio Mendes: quando sentir necessidade de dizer boas verdades àqueles que continuam a prejudicar-nos lembre-se que não está sozinho, mas que tem uma cidade inteira a apoiá-lo. Isto talvez ajude).

E, acima de tudo, continuo a achar que existe uma necessidade de valorizar mais os sócios. Não me refiro apenas a palavras de agradecimento no final dos jogos (elas continuam a ser bem-vindas), mas principalmente a vantagens como descontos na loja, aquisição de produtos exclusivos, ações de interação com os sócios e o fim de promoções para todos os outros menos para nós (sim, continuo a valorizar a oferta de bilhetes como disse no passado, mas ela tem de seguir uma lógica). Sabem o quê que não nos faz sentir valorizados? Organizarem uma gala dos Conquistadores… sem os conquistadores… Não foi nada simpático (essa ainda continua a doer… E, já agora, a única coisa de jeito que o Emílio Macedo da Silva fez foi voltar a celebrar o aniversário do Vitória na sua data: 22 de Setembro. Porque é que voltamos a celebrá-lo em Dezembro? Nunca percebi (sintam-se à vontade para me responderem que eu gostava mesmo de saber)… Ufa, há muito que precisava de dizer isto).

Cinco anos depois, as dívidas com os credores foram saldadas (ou pelo menos acordadas), o passivo está reduziu mais de metade, a SAD não parece ter trazido problemas e o Vitória está mais forte desportivamente: ganhou a sua primeira Taça de Portugal e esta época está a lutar pelo 4.º lugar do campeonato e apurou-se para a sua sétima final da Taça de Portugal.

Em suma, com todas as boas e más decisões, acredito que esta direção deu passos consistentes e significativos para que cada vez mais o Vitória volte a ser uma referência e que obtenha os resultados desportivos que todos os vitorianos almejam.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.