Cidadania

Não é minha intenção fazer hoje uma crónica sobre desporto, e mais propriamente sobre o Vitória, que é assunto que aqui no Duas Caras e que está muito bem entregue aos meus amigos Sandra Fernandes e Secundino Rodrigues, que semanalmente escrevem excelentes prosas sobre esses assuntos.

Mas o desporto e o Vitória fazem parte importante da comunidade vimaranense, que é um concelho de muitos e excelentes desportistas, sendo o clube uma das suas principais referências (diria a principal) afectivas em termos do orgulho de identificação dos cidadãos com a sua Terra.

E por isso tudo que diz respeito ao Vitória “mexe” com os vimaranenses, os seus triunfos são triunfos de todos e quando o clube é ofendido, desconsiderado, tratado abaixo do que merece é uma ofensa que todos sentimos como sendo feita a nós próprios.

É um lugar-comum, mas cheio de razão de ser, dizer-se que o Vitória faz parte de cada família como um dos seus elementos mais queridos.

E faz.

Por isso não admira que ao longo dos anos, desde antes do 25 de Abril, algumas das maiores manifestações de cidadania que se fizeram em Guimarães foram motivadas pelo Vitória quer por ser mal tratado pelos poderes do futebol quer quando se tornou necessário os vimaranenses saírem à rua a dar suporte a algumas das reivindicações do clube em termos de crescimento patrimonial.

Sabe-se também que desde há muito os vitorianos olham com crescente desconfiança o tratamento que a comunicação social nacional dá ao clube quer por considerarem que com raras excepções não o valorizam como deve ser, quer por entenderem que é tratado de forma “menor” em relação a outros emblemas, quer por acharem (e na esmagadora maioria das vezes com razão) que a comunicação social branqueia os atropelos e prejuízos que nos são causados quer por árbitros quer por órgãos disciplinares.

Já para nem falarmos do facto de as televisões serem hoje caixas de ressonância de três clubes, com dezenas de horas semanais a serem-lhes dedicadas em reportagens e debates entre paineleiros que lhes são afectos, naquilo que é uma evidente forma de condicionamento da verdade desportiva das competições.

Este fim-de-semana, em plena Páscoa, o Vitória foi alvo de mais uma tentativa de atropelo canalha vindo de um canal de televisão que nunca pelo nosso clube demonstrou qualquer simpatia.

No caso a SIC-Notícias.

Que no seu site, e numa peça de análise à jornada do fim-de-semana, referia com imagens dos símbolos e tudo que o Benfica era primeiro, o Porto segundo, o Sporting terceiro e o…Braga quinto!!!

E o quarto?

Que por acaso está isolado nesse lugar com dois pontos de avanço sobre o quinto.

Não constava.

Uma autêntica afronta ao Vitória esta ignorância a que propositadamente o votaram.

Mas os vitorianos não dormem.

E apesar de ser fim-de-semana de Páscoa a indignação rapidamente alastrou pelas redes sociais, os adeptos mobilizaram-se e foi uma autêntica “romaria” ao site da SIC-Notícias para lá deixar os mais veementes protestos (alguns no mais “veemente” português que a indignação não escolhe palavras) quanto à afronta e falta de respeito pelo nosso clube.

Dezenas, centenas, não sei mas sei que ao fim de poucas horas a indignação vitoriana venceu e a SIC-N retirou a página em que nos discriminava embora sem apresentar as desculpas que eram devidas ao Vitória Sport Clube.

Foi o que se pode chamar uma verdadeira manifestação de cidadania.

Em que um poderoso canal de televisão teve de se vergar à indignação dos adeptos de um clube que não faz parte daqueles a quem chamam “grandes” mas que tem nos seus adeptos uma grandeza que se pode considerar única e extraordinária.

Mas foi também, e talvez essa seja a grande lição a retirar, a prova de que vale a pena insurgirmo-nos, levantarmos a nossa voz, reivindicarmos justiça quando entendemos que o nosso clube é prejudicado por poderes que sendo muito fortes também tem os seus pontos fracos.

É uma lição de cidadania para o futuro.

E é, também, uma lição que o desporto oferece à comunidade.

Luís Cirilo Carvalho, 57 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico