Eu também gostaria de experimentar isso da democracia

Se por ventura fosse possível viajar no tempo e me dessem a escolher a data que gostaria de visitar seria, obviamente, a madrugada de 24 para 25 de Abril e os meses que se seguiram.

Pessoas de gerações anteriores à minha recordam esses tempos como uma altura de esperança de construção de um país melhor e de uma sociedade mais justa.

As primeiras eleições legislativas, a 25 de Abril de 1975, tiveram a menor taxa de abstenção de sempre – 9%. As pessoas acreditavam, de facto, que depois de anos de mordaça, teriam uma voz activa.

O que é que aconteceu a essa crença, essa esperança, até aos dias de hoje?

Eu sei: foi capturada por uma classe política para a qual o poder é um fim em si mesmo. Desde esse tempo tudo mudou. Outras gerações de pessoas dizem que antes as sedes partidárias estavam abertas e tinham bibliotecas e, quem quisesse, poderia entrar e requisitar livros. Organizavam-se debates, discutiam ideologias, pensadores e ideias.

Hoje nas sedes partidárias discutem-se estratégias partidárias. O que fazer para ganhar mais votos? Contratam-se gestores de campanha para saberem de que cor devem ser os fundos dos cartazes, quais são as frases mais apelativas, fazem-se contas aos militantes com quotas em atraso para saber quantos votos se pode pagar numa determinada freguesia. Fazem-se conta aos autocarros de emigrantes que é possível trazer, fazem-se aparições fantasmas em festas “fixes” para cativar o público mais jovem que normalmente não vota, espalham-se cartazes com frases sem sentido pela cidade e poluem-se as caixas de correio com fotografias e slogans de campanha. E os programas políticos? E as ideias? E as propostas para uma sociedade melhor?

Não sei – não tenho como saber – mas sei que não há um elo entre representado e representante. Um elo digno. Um eleitor deveria ser alguém que é continuamente informado e auscultado, e não alguém que deve ser convencido a votar – com comícios, concertos e brindes, que a malta gosta é de canetas e aventais – para legitimar o poder que alguém tem por um determinado de tempo e que durante esse período de tempo aparentemente não tem que prestar contas a ninguém.

Democracia, onde? A democracia não se pode esgotar apenas num voto. Há um diálogo que tem que ser mantido entre representantes e representados que compete aos representados iniciarem. São eleitos para um cargo público e para prestarem um serviço público. Para representarem e defenderem interesses de eleitores.  Estão ao dispor do cidadão.

Não é isto que eu vejo a acontecer neste país. Não é a democracia que anda a passar por aqui.

Há-de chegar o tempo em que os eleitores vão a reclamar o poder para as suas mãos e deixarem de o delegar em representantes que não cumprem o seu papel. Talvez aí haja esperança para um mundo melhor.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.