O conceito egocêntrico na vida atual

Há um conjunto de fatores das mais diversas proveniências e contextos que conduziram a sociedade atual a uma vivência centrada, particularmente, na satisfação do seu ego.

Este fenómeno verifica-se na conduta dos líderes de vários países, no seio das políticas que enformam a sua governação, no desporto, onde para alcançar o êxito parece valer tudo e, para não adiantar mais exemplos, fico-me por aqui. Ainda assim, enfatizo a ambiência familiar que tenta resistir, sem grande êxito, a esta mutação social.

O que se verifica atualmente na vida em sociedade, merecerá dos especialistas na matéria argumentos vários que em pormenor desconheço. Porém, o comum dos mortais é capaz de enunciar alguns sintomas que foram, e são, o sustentáculo deste egoísmo nada salutar de que enferma a nossa conduta cívica.

Tenho para mim que, para além de outros fenómenos de dimensão universal, tais como: a globalização, as novas tecnologias, o desmesurado crescimento da população mundial e a escassez de recursos para a superação das suas carências básicas explicarão, também, o porquê deste egoísmo crescente.

Alguns conceitos ancestrais, laicos ou religiosos, a começar pela escandalosa acumulação de riqueza de uns tantos em detrimento de muitos, gera tremendas desigualdades que conduzem a tão desumano egoísmo.

Não é despiciendo considerar ainda a pretensa superioridade de certos países que assentam esse estatuto na sua riqueza material, ao mesmo tempo que subestimam valores que outros possuem e eles não têm, valorando e exibindo com sobranceria este caldo de cultura, que vai germinando no seio de tantas e tantas comunidades.

Também a família tradicional sofreu profundas alterações no mundo ocidental, deixando de ser a célula social que definha a cada dia que passa.

Para o título do tema que escolhi, conta sobretudo a família de hoje que, a pouco e pouco, particularmente no mundo urbanizado, teve de adaptar-se à contemporaneidade e às externas imposições da mesma. Esta adaptação não implica um comportamento desviante, mas impõe-lhe uma natural adaptação a tudo o que a rodeia. As alterações das condições de trabalho, a dimensão da comunidade onde habita e as rotinas distintivas do dia-a-dia, são de tal modo exigentes que tocam o tradicional conceito de bem-estar com que sonharam.

Estes ajustamentos sociais, exigidos aos cidadãos, impuseram-lhe uma vivência individualizante a que teve de adaptar-se. Com ela desvalorizou o todo que poderia envolvê-la e, instintivamente, busca meios de defesa para o contraste frenético em que cada dia se vê mergulhada. O egoísmo, à falta de melhor, é mais uma arma a que lança mão.

Os que não revelam estas capacidades de adaptação e se refugiam numa conduta não condizente com este turbilhão global que a todos assola, estagnam no isolamento social que lentamente os faz parar no tempo, relegando-os para um patamar de exclusão altamente pernicioso.

Abordei, genericamente, o pouco do que consigo observar no dia-a-dia e tudo o que referi vem, por parte de muitos e não apenas de alguns, envolto no cinismo, na inveja e no desprezo dos mais carentes. Tal postura, revela uma pungente falta de valores suportada no mais oco que a vida tem e, por esta via, na falsa autoestima do seu ego. Numa sociedade sã, este “modus vivendi”, vale muito pouco.

Havendo cidadãos e instituições que combatem tenazmente o que critiquei e a quem rendo os meus hosanas, é de louvar o esforço que o atual Presidente da República faz para que seja possível mitigar, se não eliminar, a chaga social dos sem-abrigo que nos faz corar de vergonha. Honra lhe seja e que não desista, até conseguir para si uma condecoração cívica que o engrandecerá aos olhos dos cidadãos do seu país, não deixando ninguém indiferente, (nem sequer os corações mais empedernidos), com este seu combate.

Bem-haja, Professor Marcelo. Bem-haja, Senhor Presidente da República.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).