Uma primeira nota para dizer que é com especial emoção que intervenho, hoje, nesta sessão comemorativa do 25 de Abril.
É a primeira que faço em Guimarães, nesta Assembleia.
Como Ministro da Defesa intervim numa iniciativa em que trouxe a Guimarães os Ministros de Defesa do sul da Europa e do norte de África. Também, em 2009, nas eleições autárquicas, as minhas origens motivaram que fosse convidado a intervir na apresentação do então candidato do PSD à Câmara Municipal. Faço-o, agora, numa sessão de comemoração da Liberdade, em representação da concelhia de Guimarães do PSD, o partido em que milito desde 1974.
Guimarães faz parte da minha vida, desde que me conheço. Foi em Guimarães que passei – e que continuo a passar – muitos e bons momentos da minha vida, da infância até aos dias de hoje. Sem interrupção.
Costumo dizer que esta é a terra em que consigo conciliar as minhas raízes e a opção própria, desejada e emocionalmente sentida. Este momento é marca de água que sela o reencontro institucional com as minhas origens.
Mas,
Fazer uma intervenção nesta Assembleia, precisamente neste dia, é muito mais do que a expressão de uma emoção pessoal. É, sobretudo, um bom exemplo da convivência democrática e dos valores do 25 de Abril que todos defendemos.
Exemplo que esta Assembleia dá – e que eu saúdo na pessoa do senhor presidente – ao permitir, num saudável espírito democrático, com a tolerância que enobrece o discurso político e com a elevação que o dia aconselha, que use da palavra nesta sessão quem, como eu, não é membro desta Assembleia.
É um contributo importante que a Assembleia Municipal dá para a qualidade da nossa democracia que todos nós democratas devemos agradecer.
Minhas senhoras e meus senhores,
Durante 50 anos o Estado explicou-nos que éramos um país pequeno e periférico. Durante 50 anos o Estado domesticou-nos a ambição. Tirou-nos a vontade de ir mais longe.
Fez-nos acreditar que estávamos condenados a viver e a morrer na mesma condição em que nascemos.
Fez-nos acreditar que os feitos dos nossos antepassados serviam, apenas, para ser admirados e não superados.
Que estávamos condenados a ter, à nossa frente, apenas um enorme passado e a mantermo-nos acantonados na nossa autocomiseração.
Durante 50 anos o Estado moldou a imagem que o Mundo tem de Portugal, mas sobretudo a imagem que os portugueses criaram de si próprios.
Durante 50 anos o Estado ensinou-nos a conformarmo-nos com a ideia de que todos temos o nosso lugar pré determinado… E que ter menos que os outros até pode ser um sinal positivo…
Depois do 25 de abril muito mudou mas, infelizmente, a gestão do Estado, periodicamente, fica nas mãos de quem persiste em ensinar-nos que somos mais pequenos do que os outros, menos competentes ou eficazes e que ter menos também pode ser o caminho para a felicidade!
Espanha cresce 3,2%. Portugal talvez cresça 1,8%. É normal. A Espanha é muito maior e crescer 1,8% até é bom. Devemo-nos conformar com o nosso lugar pré determinado!
A Irlanda tem hoje um desemprego de 6,6%. Portugal de 10%. Não sermos irlandeses e ter um desemprego de 10% até é bom. Devemo-nos conformar com o nosso lugar pré determinado!
Aplique-se este princípio à forma como olhamos para Espanha, para a Europa ou para o Mundo. Mas também cá dentro. Na forma como olhamos uns para os outros.
Portugal está mesmo condenado porque é um país pequeno?
Portugal é maior que a Holanda. Maior que a Áustria. Maior que a Bélgica ou a Suíça. Temos mais população que a Dinamarca e a Croácia juntos. E não somos mais periféricos que a Suécia, a Finlândia ou a Irlanda.
Qual é a desculpa então? Qual é a desculpa para sermos menos ambiciosos?
Nos últimos anos, temos ouvido outra explicação: somos do sul. Como os gregos. Pergunto… Somos mais do sul do que os italianos ou os espanhóis? Espanhóis que até há bem pouco tempo, menos de uma geração, eram mais pobres que nós.
A grandeza de um povo ou de uma região não se mede pelo tamanho do território que ocupa ou do número de pessoas que o constituem.
Um povo ou uma região serão tanto maiores quanto maior for a sua vontade de superar as fronteiras do conformismo e de romper com as amarras de uma mentalidade fechada ao desafio com os outros.
Claro que há sempre alguns, no Estado, para nos explicar qual é o nosso lugar pré determinado. O de termos de ser mais felizes embora tendo menos que os outros. O de sermos tanto melhores quanto menor for a nossa exposição à concorrência e nos fecharmos sobre nós próprios.
Recuso construir muros que contenham a nossa ambição e impeçam a afirmação da nossa competência. Fora ou dentro do nosso país! Fora ou dentro desta terra de onde nasceu Portugal!
Depois da Europa ter acabado com as fronteiras, alguns, políticos ou não, insistem em criá-las na nossa cabeça. E digo isto na terra de um português, único, que não se resignou.
Nunca se conformou à condição em que nasceu. Não reconheceu fronteiras nem deixou que lhe impusessem o seu lugar pré determinado. Um Vimaranense, a quem ninguém ousa questionar a vimaranensidade, mas que daqui partiu para outras paragens, sem o que não seríamos hoje o País que somos.
Um Vimaranense, filho de pai francês e mãe castelhana, que é o primeiro exemplo multicultural do que veio a ser o nosso país. Um Vimaranense, que simboliza bem nossa imagem: uma Guimarães aberta, tolerante e cosmopolita. De braços abertos a todos os que lhe queiram pertencer.
Hoje, 25 de abril, celebramos a democracia, a liberdade de expressão, o multipartidarismo e a liberdade. Celebramos tudo isso esquecendo que a grilheta mais pérfida com que a ditadura encarcerou um povo inteiro não foi feito apenas do metal das armas nem do azul dos lápis da censura. A grilheta mais pérfida está nesta ideia de país pequeno, pobre e periférico. De povo feliz por ser remediado. De gente que se tem de conformar com o seu lugar pré determinado. De um Portugal condenado a ter mais passado que futuro.
900 anos depois do tal português, único, que nunca deixou que lhe impusessem o seu lugar, as gentes de Guimarães são ainda hoje os principais herdeiros do seu legado, o exemplo de que o país precisa: o da vontade de quebrar barreiras que só existem nas nossas cabeças.
Uma mentalidade aberta, cosmopolita e confiante, que dê sustentabilidade à capacidade criadora das nossas gentes, de quem aqui se queira instalar, de quem aqui queira pertencer.
Das liberdades restauradas em Abril, esta ainda está por cumprir. A Liberdade de querer mais. De exigir mais. Dos outros mas também de nós próprios. Falta fazer essa parte da revolução.
Neste 25 de abril, e nesta cidade que viu nascer Portugal, tomemos todos como nossa essa missão!
Disse.
