Mariana Silva, CDU: “As conquistas da revolução de Abril não estão terminadas”

“Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

Mar Português, Fernando Pessoa

A construção de Portugal começou aqui, em Guimarães, o Berço da Nação que somos.

Começamos com um território pequeno, que foi crescendo ao longo dos séculos ultrapassando o tamanho da nossa ousadia. Demonstramos poder de realização que por momentos deslumbrou o Mundo. Fomos pioneiros na descoberta de outros mundos e outras culturas, levando a nossa pátria, o português, aos quatro quantos do Mundo.

Passados 9 séculos aqueles que “da lei da morte se foram libertando” ficariam incrédulos e confusos ao perceber o cenário actual em que Portugal se encontra. Cenário de subserviência, dependência e, como alguém diria, de chapéu na mão perante Bruxelas.

País de contraste onde os curtos períodos de opulência se alternam com os longos períodos de miséria, ainda bem recentemente durante 48 longos anos vivemos oprimidos por um regime que nos aumentou a pequenez, o analfabetismo, a iliteracia, a fome, a vergonha, impingindo-nos uma vida orgulhosamente remediada.

Celebramos hoje o fim deste regime ditatorial que marcou e aterrorizou a vida dos portugueses.  Em 25 de Abril de 74 abriu-se a porta da esperança para uma vida melhor, a porta da liberdade, da democracia, da justiça social e da igualdade de direitos, da saúde e da educação para todos, do progresso.

Passados 43 anos mantemos hoje a mesma perspectiva e a mesma confiança. A confiança dos que sabem que a história está longe de ter chegado ao fim, por mais que o decretem as forças da exploração e da dominação imperial e que, mais cedo do que tarde, chegará o momento, com a luta do povo, dos democratas e patriotas, de retomar não apenas o que ficou inacabado, mas também reerguer o que foi destruído e subvertido pela política de direita e dos sucessivos governos, visando a reconstrução dos velhos privilégios do capital monopolista e latifundista, contra os quais se fez também a Revolução de Abril.

Nesta nova fase da vida política nacional, concretizaram-se medidas no plano da reposição de rendimentos e direitos e com impacto na economia que travaram o caminho de declínio e intensificação da exploração e empobrecimento.

O caminho falta fazer, as limitações que urge ultrapassar não nos permitem criar ilusões. É urgente dar respostas às aspirações e direitos para vencer os graves problemas estruturais que o País enfrenta e que se acumularam.

As conquistas da revolução de Abril não estão terminadas, é necessário mais caminho na valorização da escola pública e na maior qualificação da população,  na promoção da cultura, no combate à precariedade no trabalho e ao desemprego, no direito à habitação.

É necessário combater o desemprego elevado, a precariedade, os baixos salários. É necessário demonstrar  preocupação quanto à real situação na banca, designadamente a continuação do processo de concentração bancária e a sua transferência para o capital estrangeiro, como o pretendem fazer com o Novo Banco.

É preocupante a situação em que se encontram os serviços públicos, em sectores como a Saúde, a Educação, a Cultura, os Transportes Públicos e o Ambiente.

Porque persiste um problema de crescimento económico que fica aquém das necessidades. Persistem as ameaças sobre as taxas de juro da dívida pública. Persiste um baixo nível do investimento com graves reflexos no desenvolvimento do País e num quadro agravado de sistemática pressão e exigência da União Europeia de maior «consolidação orçamental».

A solução passa, claramente, por uma política que se liberte dos constrangimentos e condicionamentos, desde logo com a renegociação da dívida.

Uma política de libertação dos constrangimentos impostos pela União Europeia, designadamente com o estudo e a preparação do País para se libertar da submissão ao Euro e recuperar para o Estado instrumentos de soberania.

Uma política de defesa e promoção da produção nacional e dos sectores produtivos que coloque os recursos nacionais mais próximos das populações e ao serviço do País.

Uma política de valorização do trabalho e dos trabalhadores, assente no aumento dos salários e reformas, no pleno emprego e na defesa do trabalho com direitos.

Uma política de recuperação para o sector público dos sectores básicos estratégicos da economia e de forte apoio às micro, pequenas e médias empresas.

Uma política de justiça fiscal que alivie a carga fiscal sobre os rendimentos do povo e rompa com o escandaloso favorecimento do grande capital.

Uma política de defesa do regime democrático e do cumprimento da Constituição da República Portuguesa, conquistas de Abril, de aprofundamento dos direitos, liberdades e garantias.

Termino fazendo a justa homenagem a todos quantos lutaram para que hoje pudessemos comemorar. Aos valorosos militares de Abril, mas também ao povo que nunca deixou de lutar, e particularmente àqueles que deram tudo, incluindo a própria vida para que outros pudessem “não morrer sem saber qual a cor da liberdade”.

Cumpra-se Abril, Cumpra-se Portugal!
25 de Abril Sempre!!!

Foto: CMG