Torrinha: “Vivemos tempos exigentes em que a “democracia do like” substitui a participação cívica”

É já um lugar-comum dizer-se que o poder autárquico democrático é uma das mais valiosas heranças do 25 de abril, quiçá o seu fruto mais robusto. Sucede que, às vezes, os lugares comuns são tão comuns como verdadeiros. É esse, claramente, o caso.

Os autarcas, tantas vezes menosprezados, ou mesmo vilipendiados, naquele que é um fenómeno típico de julgar toda uma classe pelo mau exemplo de alguns poucos dos seus membros, têm sido os principais fautores de desenvolvimento das suas terras e continuam a ser tantas vezes o último reduto do cidadão na defesa dos seus direitos, das suas legítimas aspirações.

Ora, quando celebramos recentemente os 40 anos das primeiras eleições autárquicas em democracia, é justo que nos lembremos daqueles homens e mulheres que, desde o 25 de abril, serviram abnegadamente os seus concidadãos, as suas comunidades. Nas câmaras e assembleias municipais, nas juntas e assembleias de freguesia.

De entre esses, permitam-me que refira aqueles cidadãos, verdadeiros pioneiros do regime autárquico democrático, que, em Guimarães, logo a seguir à revolução, disseram presente e, contra todas as adversidades constituíram a primeira comissão administrativa que geriu este município. Faço-o, correndo o risco de parecer juiz em causa própria. Mas creiam que o faço por boas razões.

É que é importante recordá-los não num mero exercício saudosista, embora a saudade dos que já nos deixaram seja grande, nem tão pouco num ato de justiça, embora seja algo totalmente merecido. Acima de tudo, é fundamental lembrá-los, porque deles podemos ainda hoje colher ensinamentos que nos permitem ser melhores, que nos tornam melhores servidores dos vimaranenses.

E foram tantos os ensinamentos que eles nos deixaram.

Desde logo, o estar na vida política movidos por convicções. Com efeito, nada mais movia aqueles homens do que isso mesmo: em nome daquelas que eram as suas profundas convicções democráticas, que já tinham defendido em período de ditadura, resolveram voltar a fazê-lo, aceitando dar o corpo às balas em tempos tão entusiasmantes como incertos.

Depois, a generosidade. Tudo deram sem pedir rigorosamente nada em troca. Bem sei que os tempos eram outros e que seria desajustado pensar que hoje em dia as coisas poderiam ser iguais, mas é de assinalar que uma das primeiras deliberações que tomaram foi a de abdicar de qualquer remuneração.

Ainda de destacar a participação cívica e associativa que os caraterizava: todos eles já tinham e continuaram a participar ativamente em associações e instituições várias da sua terra: das culturais às desportivas; das de defesa do património às recreativas; das de solidariedade social às profissionais. Cidadania em estado puro.

Finalmente, a hombridade e desprendimentos políticos, simbolizados na renúncia aos cargos que ocupavam quando sentiram, após as primeiras eleições constituintes, que a sua legitimidade política estava posta em causa.

Estes ensinamentos são preciosos porque a democracia é uma obra perpetuamente inacabada. Nela nada pode ser dado como garantido. Ela constrói-se dia a dia, hora a hora.

Mais. Com o tempo, novas ameaças surgem ao regime democrático e é fundamental que estejamos apetrechados para lutar por ele. Pode não ser uma luta como aquela que travaram aqueles que nos deram o 25 de abril. É, seguramente, uma luta diferente, mas é, definitivamente, uma luta importante.

Há perigos novos e perigos antigos que tomaram outras formas.

Notícias falsas e mal-intencionadas, sempre as houve, mas nos dias que correm elas propagam-se como fogo na pradaria.

O ataque pessoal, ad hominem, desde sempre que foi um cancro de qualquer disputa política, mas atualmente quase que parece que falham outros argumentos que não esses quando se quer ganhar eleições.

O uso do anonimato no combate político é um fenómeno bem antigo e reconhecido, mas potenciado por estes dias por redes sociais em que às vezes não sabemos bem quem é quem.

Minhas senhoras e meus senhores, com aqueles homens bons de que vos falava e com outros que serviram Guimarães, aprendi que é possível estar na vida política jogando limpo, com elevação, com respeito pelo adversário.

Recordo as palavras emocionadas de Cândido Capela Dias aquando do passamento de Joaquim Cosme, eles que ideologicamente estavam nos antípodas um do outro, mas que souberam construir uma amizade em cima disso.

Não esqueço, igualmente o abraço que deram Fernando Alberto Ribeiro da Silva e António Magalhães na homenagem recentemente feita a este último. Naquele abraço sentido que uniu dois adversários políticos de décadas no nosso concelho estava condensado o verdadeiro espírito democrático de pessoas que sabem que acima do combate há valores que em caso algum podem ser postergados.

O combate político feito assim, com princípios e elevação agrega, une, entusiasma, chama os jovens para a participação política.

O combate feito de ódios, de maledicências, do vale tudo, afasta, desincentiva, corrói e assim destrói a própria democracia.

Esse é, talvez, o maior desafio que temos perante nós nos próximos anos: o de não permitir que os nossos cidadãos, sobretudo os mais jovens, deixem que a atividade política lhes passe ao lado.

Num estudo recente perguntava-se às pessoas se tiveram alguma atividade política, sendo que como atividade política entendia-se qualquer atividade no sentido de alterar leis ou políticas, participação em reuniões, manifestações, demonstrações públicas, participação em campanhas eleitorais, isto independentemente de se fazer parte de um partido ou não. Ora, a percentagem daqueles que responderam negativamente foi não só altíssima, como se mantém estática desde há muitos anos a esta parte.

Vivemos tempos exigentes em que aquilo a que se já se apelidou de “democracia do like” substitui a participação cívica; em que uma indignação instantânea numa qualquer rede social, quantas vezes em temas que têm tanto de virais como de acessórios, substitui a luta pelas causas que verdadeiramente contam; em que a participação política é vista por muitos não como curriculum, mas como cadastro.

Saibamos, pois, honrar aqueles que nos antecederam. Defendendo entusiasticamente as nossas ideias e projetos. Pondo de lado as nossas ambições pessoais e valorizando o que fizemos e queremos fazer. Promovendo políticas que valorizam a participação cívica dos cidadãos a todos os níveis. Dando o exemplo, não permitindo que o debate político desça a níveis insalubres, mesmo quando é grande a tentação para o fazer.

Num boletim da PIDE de um daqueles homens bons de que vos falei, foi escrito o seguinte de um então jovem de menos de 30 anos: “Não oferece garantias de cooperar na realização dos fins superiores do Estado.” Felizmente, o 25 de abril levou para longe esses tempos em que um jovem que pensasse pela sua própria cabeça e interviesse publicamente em defesa das suas ideias era visto como um perigo.

Saibamos transformar ainda mais essa realidade fazendo do nosso tempo o tempo em que a luta pelas nossas ideias, pelos nossos projetos é, isso sim, um dever, um orgulho. Em boa medida, isso depende de cada um de nós. Políticos. Não políticos. De esquerda. De direita. Acima de tudo, depende de cada um de nós, cidadãos de corpo inteiro.

Viva o 25 de Abril. Viva a democracia. Viva a liberdade.

Foto: CMG