Rita Caldas, MPT: “Não consigo explicar este paradoxo de sermos a geração mais capaz com menos provas dadas”

Caros Vimaranenses,

Falo-vos aqui enquanto cidadã portuguesa, nascida e criada em Guimarães.

E por não ser deputada à assembleia, quero começar por agradecer à mesa a oportunidade de me expressar nesta comemoração do Dia da Liberdade.

Sou da geração da Democracia.

Geração que não conhece qualquer limitação formal à liberdade da expressão.

Geração que não conhece a guerra, nem tudo o que a guerra carrega.

Geração cujos direitos humanos viu consagrados desde nascença.

Geração sonhada e desejada pela geração anterior.

E se estamos aqui hoje a celebrar a liberdade que é nossa por direito, é porque um grupo de jovens militares das forças armadas se juntou há 43 anos atrás, cheios de sonhos e em torno de uma causa em comum. Não era uma causa partidária que os motivava, era ideológica. Não tinham medidas concretas para a economia, finanças ou educação. A liberdade é que os guiava, não o poder.

O resultado foi uma das revoluções mais encantadoras que o Mundo já viu. Pacífica e com o apoio em massa da população. Cheia de estórias educativas para quem as viu e para quem as ouve. Como o tanque que parou num sinal vermelho em plena marcha revolucionária. Ou então, já no período de transição para a Democracia, as discussões acesas entre os defensores de diferentes regimes políticos.

A revolução foi um verdadeiro curso intensivo de ciência política. Um caso de estudo para qualquer revolucionário. Comunismo, liberalismo, socialismo e outros “ismos” eram discutidos por todos e a todos os níveis. Havia opiniões em todo lado e vontade não faltava. Nessa altura, tivemos a maior afluência às urnas na história da nossa Democracia, com mais de 90% dos eleitores a votar.

E do pináculo da consciência política, chegamos aos dias de hoje.

Apesar de pertencer a uma geração privilegiada, mais do que as anteriores, não quer dizer que não tenhamos problemas ou ambições de querer mais.

Apesar de pertencer à geração com mais estudos e oportunidades, não quer dizer que sejamos uma geração de sucesso.

Apesar de nos terem conquistado a liberdade, não quer dizer que sejamos livres de facto.

Tendo em conta a inflação e tudo mais, a minha geração ganha menos que a geração anterior. Até onde há memória, somos a primeira geração com menos expectativas que a geração anterior.

Cheios de energia potencial que teima em não se tornar em energia cinética. Representamos o chamado custo de oportunidade que tanto se investiu para conseguir e que teima em não lucrar. Ou aquela colheita em que tanto se laborou e que teima em não produzir.

Eu não consigo explicar este paradoxo de sermos a geração mais capaz com menos provas dadas. A quem lhes foi dado tudo e não consegue nem o que os anteriores conseguiram.

Se liberdade é independência, nós não somos livres.

Se liberdade é esperança no futuro, nós ainda estamos presos ao passado.

Se liberdade é poder, nós não podemos.

A luta pela liberdade não começou nem acabou com o 25 de Abril de 1974.

Esta luta trava-se todos os dias.

Esta luta trava-se em todo o lado.

Esta luta trava-se dentro de cada um de nós, por cada um de nós e para todos nós.

Divergentes em medidas concretas mas convergentes em direitos fundamentais.

Distintos na forma mas idênticos no objeto.

Todos queremos um Portugal de igualdade de oportunidades.

Todos queremos um Portugal justo. Onde toda a gente cumpre os seus deveres e goza dos seus direitos.

Todos queremos o mesmo essencial, e para o termos, basta querer.

Nunca duvidemos disso.

Tal como nos foi lembrado há 43 anos atrás, basta um pequeno grupo de cidadãos empenhados para mudar o curso da História.

Viva a um Portugal livre e a todos que lutam por ele.

Foto: CMG