António Magalhães: “Temos o dever de reclamar perante os nossos governantes que casem a liberdade com a solidariedade”

A data que hoje comemoramos conduz-nos sempre, ainda que com nuances, a uma madrugada de sonhos a amanhãs de esperança, a respeitáveis utopias, tudo isto sustentado pela explosão que nos soltou, de repente, as amarras de uma noite de tréguas, cerceadoras da nossa liberdade.

Do que mais sublime nos trouxe o 25 de Abril de 1974, destacarei sempre a liberdade. Tudo mais, ainda que relevante, se não tiver por suporte tal conceito é frágil, superficial e normalmente transitório. É da liberdade que emanam a justiça social e as oportunidades de cidadania na plenitude de todas as suas potencialidades.

Foi essa liberdade conquistada que nos permitiu ser hoje o que somos: uma democracia pluralista e pluripartidária, construindo-se com ela a legitimação de sermos parte integrante das democracias mundiais, vivendo até aí na solidão a que o mundo no votou. Era o “orgulhosamente sós” de má memória.

Todavia, a liberdade não é um estado estático, mas antes um exercício, o que implica uma postura dinâmica consonante com os conceitos evolutivos da vida em que vivemos, aprimorando esta na esteira dos objectivos comuns, que , na diversidade, engrandecem os cidadãos e, por consequência o país.

Nos dias que correm, no Portugal de hoje e não só, há quem menorize este elemento mor catapultador da vida dos povos. Uns porque desconhecem a história das revoluções. Sentem-se injustiçados face às utopias não realizadas com que sonharam. Outros, porque não se adaptaram à sã conflitualidade democrática e saudosistas do passado, pugnam pelas benesses que só alguns possuíam mas que, em democracia, todos almejam.

Hoje justifica-se que percorramos, ainda que a passos largos, o que até agora se conquistou, e foi muito. Sumariamente, diria que somos outro país. Evoluímos em variadíssimos parâmetros da nossa sociedade, como é mister reconhecê-lo.

Foram dados passos significativos quanto ao estatuto que é devido à mulher, na garantia dos direitos dos trabalhadores, no reforço do poder local. Ganhamos relevância no conceito das nações e, materialmente, conseguimos um salto qualitativo tal que, de fora, só acredita nele quem vem até nós.

Nos valores imateriais, os nossos melhores talentos dispersos por todo o mundo, são embaixadores únicos, do que também nos campos científicos, cultural e político, fomos capazes de atingir.

A nível nacional é de relevar o papel das autarquias locais que desenvolveram uma ação modernizadora do país que todos reconhecerão.

A educação, o estado social, os direitos dos trabalhadores e tantos outros elementos de progresso cívico e social, justificam o sacrifício de tantos em benefício de muitos outros e do desenvolvimento do país.

O tratado de adesão à União Europeia, liderado por Mário Soares, assinado em 1986, abriu-nos as portas de um mundo novo, marcando a nossa evolução internacional com inegáveis vantagens. Porém, a utopia e os sonhos cerceados durante longo período pelas políticas de Salazar, brotam, agora, em exigências de quase deslumbramento para as quais se impõem moderação e não o repentismo e o afã intempestivo de tudo fazer e depressa.

Vieram as dificuldades oriundas de bem longe, que foram desvirtuadas, a nível europeu e nacional, por um proselitismo subserviente, assente na sobranceria de uns quantos. Rasgaram, sempre que lhes convinha, os princípios do Tratado de Roma que fez grande um punhado de homens, fautores da Comunidade Europeia.

A políticos de craveira mundial, sucederam mais tarde um conjunto de burocratas que desvirtuaram os valores e os compromissos assumidos que a todos obrigam, mas que os mais poderosos não cumprem.

Fazendo tábua rasa do passado da velha Europa, deixaram-se encurralar, não nos restando outra alternativa se não refundar os princípios da União. Uns visionários, outros cegos com as exigências do mercado e das benesses que alguns daí obtêm, não perceberam que uma Europa sem uma real política de solidariedade entre povos e nações, sem uma força militar dissuasora,  poderia resvalar para as dificuldades que agora evidencia e que a tantos riscos nos expõe. Estes últimos, deslumbrados pela ganância, descuraram o nosso futuro colectivo.  Não é uma Europa solidária aquela a que hoje pertencemos e, por isso mesmo, tantas dissensões a dilaceram.

Alguns, teimosamente, amesquinham-nos hipervalorizando a sua riqueza material que de pouco valerá na perigosa turbulência mundial em que vimos caindo. Sem hossanas, ainda que divididos, reconheçamos sem favor que, a nível interno, o percurso mudou, criando uma nova esperança.

O muito a que os portugueses foram capazes de dar corpo, entre períodos de euforia e dificuldades que não se escondem, transformaram Portugal num país contemporâneo em muitas das suas vertentes. Porventura teremos dado demasiada importância às pedras. Urge, agora, ainda com maior desvelo, preocuparmo-nos com as pessoas, suavizando as carências em que vivem e a cujas soluções têm direito. Uma sociedade livre e democrática, não pode ver, o seu semelhante a definhar na berma da estrada da vida.

Temos o dever de reclamar perante os nossos governantes que casem a liberdade com a solidariedade e a lealdade com o mérito, não preterindo este em favor daquela.

A liberdade é um exercício constante de conquistas em que direitos e deveres de conjugam com cidadania universal e plena. E que a todos respeita.

Se trilharmos o virtuoso caminho da liberdade com responsabilidade, neste país e nesta terra, que se chama Guimarães, honraremos a visão e a coragem do nosso primeiro Rei de quem herdamos o Portugal que somos. E relevaremos a ousadia dos capitães de Abril a quem devemos a liberdade, desígnio mor, da vitalidade de um povo e suporte da democracia que queremos para nós e legar aos nossos vindouros. Uma exigência que, civicamente, todos estamos obrigados.

Viva a liberdade!
Viva o 25 de Abril!
Viva Guimarães!
Viva Portugal!

Foto: CMG