Notas soltas sobre o populismo

Como que de repente, face a acontecimentos de âmbito mundial que podem vir a influenciar a vida de todos nós, começou a abordar-se, com maior ou menor conhecimento, o conceito de populismo, que entrou no léxico do nosso dia a dia.

Convém referir, como julgo ser do conhecimento geral, que o populismo, surgindo agora à tona das nossas preocupações, teve já períodos, na nossa História, profundamente nefastos para a Europa e para o Mundo. Estes conduziram, talvez, às maiores atrocidades a que os seres humanos foram sujeitos.

A história do nazismo, que muitos conhecerão, pelo menos nas suas linhas gerais, e o peronismo, na Argentina- ainda que sem os horrores daquele- foram duas formas de populismo que a história trouxe até nós e que a humanidade não esquecerá. Claro que com dimensões e conceitos bem diferenciados entre um e outro.

Hoje, com a chegada de Trump à liderança dos EUA, inopinada, mesmo no seio do seu partido, aquela terminologia entrou nas nossas conversas, agora também secundada pelo fenómeno eleitoral que está a abalar a França.

Para percebermos o porquê da força que o conceito atingiu, em tão curto espaço de tempo, convém que entendamos as causas deste virar de página.

Nos séculos XV e XVI com os descobrimentos portugueses, que na época deram novos mundos ao mundo, fomos pioneiros de uma certa forma de globalização. Provocaram-se, então, um conjunto de alterações na vida de vários povos pela inovação, pelas novas formas de comerciar, pelos conhecimentos náuticos e pelos novos continentes que descobrimos e explorámos.

Tudo isto trouxe importantíssimos impactos sociais em várias partes do globo, que demoraram a estabilizar a vida das respetivas populações.

Mais tarde, com a revolução industrial, outro choque se verificou na sociedade da época, que fez emergir o populismo na Europa, a que atrás me referi e que acabou tão tragicamente como sabemos.

Agora, estamos perante uma revolução tecnológica à escala mundial, que está a virar tudo do avesso.

O “modus vivendi” estabilizado, num ápice, deixou a sua matriz. Estamos perante uma sociedade dual, na América, na Europa e no Mundo, sendo mais assertiva nestes dois continentes.

Acertar o passo com as adaptações que é necessário fazer deixa largas franjas da população sem resposta para a sua trágica existência. De repente olham à sua volta e é o vazio material e imaterial que vislumbram.

Uma larga camada desta população não foi capaz de acompanhar a evolução dos nossos dias e está predisposta a tudo aceitar para regressar ao sonho, o sonho da vida que já tiveram e que, tão dolorosamente, estão a perder.

Os populistas têm, neste estrato social, terreno fértil para vender a sua tenebrosa doutrina. A verdade, porém, é que a descrença nas instituições nacionais é tanta que os deserdados da sorte se agarram a esta tábua de salvação. Com tal desespero, dão alento aos profetas, que assim vão ganhando terreno eleitoral, que implica sérias preocupações.

Para melhor ajuizarmos o que está a acontecer, aguardemos o resultado da segunda volta das eleições francesas, para melhor percebermos a dimensão da onda que recentemente varreu a América.

Fica, no entanto, desde já uma certeza: a agitação que sobressalta a sociedade francesa, por ser tão complexa, não vai serenar como gostaríamos.  A vida dos franceses e, por tabela, também a dos europeus, vai permanecer agitada como a conhecemos.

Aguardemos!

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).