Que cidade queremos?

Volta e meia ainda ouço alguém dizer uma coisa destas sobre Guimarães. “Cidade pequena, é uma pasmaceira”. Sorrio condescendentemente. Não raras vezes as pessoas falam de coisas que realmente não sabem. Fico um bocadinho mais triste quando é um vimaranense a dizê-lo.

Que Guimarães é uma cidade especial não tenho, nem nunca tive, dúvidas. Que foi um privilégio crescer numa cidade pequena com esta actividade cultural também não tenho dúvidas. Foi incrível ver acontecer aqui uma Capital Europeia da Cultura, que pode não ter estado ao nível das mais altas expectativas, mas não deixou de ser o ano mais incrível para Guimarães no meu tempo de vida.

Cinco anos depois parece-me que alguns (bons) problemas se repetem. A cidade está cheia de vitalidade cultural e voltamos a ter fins-de-semana com imensos eventos a acontecerem para todos os gostos. Com uma diferença. Estes eventos não estão a ser programados/promovidos por pessoas exteriores à cidade contratadas para desenhar um programa cultural. Não. São vimaranenses ligados às artes e à cultura que resistiram à ida para cidades maiores onde, naturalmente, há maior criação artística e mais oportunidades de trabalho e teimam em ficar em Guimarães e criar aqui as estruturas e as oportunidades de criação.

Guimarães construiu a sua marca distintiva na cultura. É na relação entre o seu tamanho e oferta cultural – e agora, cada vez mais, na criação cultural também – que Guimarães se demarcou das restantes cidades da sua dimensão. E bem! É uma aposta ganha a este e a muitos outros níveis, como por exemplo, no tipo de turismo que atraímos.

Parecendo-me isto óbvio e já sobejamente comentado, ainda não percebi porque estamos tão concentrados a discutir parques de estacionamentos, túneis, estradas e carros em vez de discutirmos com o mesmo vigor políticas culturais. Se começamos agora a querer competir com Braga com parques subterrâneos e túneis, começamos com mais de 20 anos de atraso. É isso que queremos?

Não queremos também ser Capital Verde Europeia? Então o sentido não devia ser mais verde, menos asfalto? Menos carros na cidade, mais e melhores transportes públicos?

Parece-me que claramente falta aqui uma visão objectiva de um futuro para Guimarães. As campanhas políticas não deveriam ser (apenas) com os partidos de costas voltadas e disputando quem tem o programa com mais obras delirantes para fazer. Há mais vida para lá do betão.

Uma boa opção poderia ser também a procura de consensos e saber que cidade queremos ter no futuro, aproveitando aquilo que a cidade hoje é e potenciando aquilo que tem de melhor: vitalidade cultural e o capital humano.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.