Além da mobilidade: a habitação

O concelho de Guimarães tem dois grandes desafios para a próxima década: Mobilidade e Habitação.

O tema da mobilidade tem merecido várias reflexões dos agentes políticos e dos vimaranenses. Ora pela vertente do estacionamento, ora pela vertente dos transportes públicos, ou ainda pelos meios de transporte alternativos.

Já o problema da habitação, por estranho que possa parecer, não tem sido alvo de tão aprofundada análise. Estranho porque qualquer pessoa que tenha procurado casa para alugar em Guimarães, principalmente na cidade, depara-se com valores de renda desproporcionados quando comparados com cidades da mesma dimensão.

Eu próprio, durante alguns anos, tendo por base de comparação os preços da habitação de Braga – onde estudei – convenci-me que este era um falso problema. Braga tinha habitação mais barata porque construiu de forma desregulada e tinha excesso de oferta.

Guimarães, estava eu convencido, apostou no modelo mais contido na quantidade, e mais focado na qualidade da construção ou das recuperações.

Hoje não chego às mesmas conclusões, apesar de uma parte dos pressupostos se manterem inalterados. Em primeiro lugar, porque o problema se alastrou ao país, com a chegada de fatores como os “airbnb’s” ou o aumento do preço das casas para obtenção de “vistos gold”. Em segundo lugar, porque há no caso vimaranense questões diferenciadoras que potenciam o problema: a nossa oferta sofre de problemas de tipologia – é difícil encontrar casas com tipologias inferiores a T2 – e de concentração das habitações em meia-dúzia de proprietários. Estes fatores resultam numa consequente subida dos preços por via das regras do mercado.

Só que o poder político não pode estar refém das regras do mercado. A verdade é que a maioria das decisões não cabem ao poder local e muito há a fazer neste terreno para que os efeitos do alojamento local e de modelos de aluguer temporário não se reflitam nos preços da habitação.

Mas veja-se o exemplo de Lisboa. A Câmara Municipal decidiu lançar um projeto de construção de habitações a custos controlados, em diversos formatos de tipologia, com preços que começam nos 150€. Preços muito longe do praticado na capital, mas também muito desfasados do praticado na nossa cidade.

Quem já tentou alugar casa em Guimarães, reconhece que é absolutamente impossível morar a menos de 20 minutos do centro da cidade com preços inferiores a três vezes este valor!

Este valor, não só tem o efeito direto para aqueles que consigam, por via de candidatura, ocupar aquelas habitações, como tem resultados expectáveis no campo da regulação dos preços praticados.

É por isso hora de nos libertarmos de amarras e de ideias pré-concebidas, deixarmos de aceitar os ditames do mercado como inalteráveis, e refletirmos de forma profunda sobre o problema.

É algo com que teremos que lidar nos próximos anos, sob pena do problema da mobilidade ver o seu peso reforçado pela necessidade de qualquer vimaranense morar a mais de 5 km do centro da sua cidade.

Paulo Lopes Silva, 29 anos, é membro da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Foi membro da comissão de acompanhamento da Capital Europeia da Cultura na Assembleia Municipal. Gestor de Projetos numa consultora de Software do PSI 20, é licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.