Odeio princesas.

O relógio mostra-me que são exactamente 00:11 no momento em que começo a escrever este texto. As linhas que tinha preparadas foram apagadas. O tema andaria à volta do mesmo, as mulheres e a importância do feminismo, por causa deste artigo que li esta semana, do qual concordando em muita coisa, discordo em absoluto da tónica da crónica. Às vezes, parece-me que neste tipo de artigos reserva-se à mulher um papel estático e passivo no sexo, a quem o homem tem que perguntar três vezes pelo consentimento.

Muito haveria a dizer sobre este desequilíbrio de posições e aquilo que eu acho que o provoca, mas hoje num final de um dia de trabalho extenuante, passo os olhos pelo Facebook e vejo uma data de gente a reclamar com o jornal-de-quem-não-devemos-pronunciar-sequer-o-nome. Perguntei o que se tinha passado e eis que me dizem que este jornal publica no seu site um vídeo de uma alegada violação dentro de um autocarro.

Para quem, como eu, vai estando atenta aos fenómenos da cultura de violação que se vêem um pouco por esse mundo fora, este tipo de situações não é, infelizmente, novidade, com a excepção de um jornal publicar um vídeo deste teor – primeiro, pelo mais elementar sentido de decência e, numa segunda instância, por respeito à vítima, que terá de conviver o resto da vida com um vídeo que jamais desaparecerá da internet e que ainda terá acesso às caixas de comentários – a coisa mais deprimente do mundo.

Felizmente, a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género já avançou com duas queixas – uma contra os responsáveis pelo ataque sexual e outra contra o jornal pela prática de crime contra a honra ou contra a reserva da vida privada. Mas nós, indivíduos/as, podemos fazer mais. Primeiro, ignorar e esquecer que existe um canal, um jornal, uma página de Facebook e desligarmo-nos e desconectarmo-nos de tudo o que tenha a chancela daquele jornal. Não lhe dizer o nome. Depois prestar queixar em entidades oficiais como a ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Existe até, na Internet, um balcão para este tipo de queixas por isso podemos até praticar a nossa cidadania como estamos habituados – sem levantar o rabo do sofá. É apenas sair 5 minutos do Facebook e apresentar uma queixa aqui.

Não pensem que aquela rapariga podia ser a vossa mãe, irmã, prima, filha. Pensem que podiam ser vocês. Pensem que agora toda a gente tem uma câmara na mão e podemos estar constantemente a ser filmados, mesmo quando nos acontecem coisas más e que já nem os jornais se inibem de publicarem conteúdos assim, se isso significar mais cliques ou mais “likes”.

Recuso o binário homens maus agressores / mulheres boas vítimas. Acho que não ajuda ninguém. A frase de Margaret Atwood  – “Homens têm medo de que as mulheres riam deles. Mulheres têm medo de que os homens as matem” – resume bem aquilo que eu penso em relação à sociedade machista que vivemos, que tanto é nociva para homens como para mulheres. Não podemos ter relações saudáveis se temos medo uns dos outros.

É tempo de deixarmos de criar os nossos meninos como príncipes que tem tudo a conquistar e de criarmos as nossas meninas como se fossem princesas – que um dia casarão com um estranho só porque ele é muito valente ou como troféu de qualquer outro característica fora do comum. Está tudo errado com as histórias de príncipes e princesas com as quais a minha geração cresceu. É preciso salvar as próximas gerações destes maniqueísmos ensinar-lhes que as relações humanas, ainda que as românticas e sexuais partem ou deveriam partir todas do mesmo princípio: igualdade de poder entre pares, confiança e respeito.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.