‘Moreira’ vive época ‘atípica’ oscilando entre festejos pela Taça da Liga e sufoco pela manutenção

Em Guimarães, terra de conquistadores, também ‘mora’ o “pequenino mas valente” Moreirense, vencedor da Taça da Liga, ‘gigante’ na última jornada ao conseguir a manutenção com um 3-1 sobre o eterno candidato ao título, o FC Porto, e conseguindo pela primeira vez na sua história marcar presença quatro vezes consecutivas no principal escalão do futebol português.

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Aos 29 dias do mês de janeiro de 2017, a 600 quilómetros de ‘Moreira’ – forma carinhosa como é abreviado quer o nome do clube, quer o nome da vila – o Moreirense fazia história ao conquistar de forma surpreendente a Taça da Liga com uma vitória sobre o Sporting de Braga por 1-0 com uma grande penalidade convertida por Cauê na final que se disputou no Algarve.

Até aí a pacata vila de Moreira de Cónegos que ocupa cerca de 4,72 quilómetros quadrados do concelho de Guimarães tinha sido capa de jornal em novembro de 2004: 43,75 milhões de euros, o primeiro prémio do Euromilhões a sair em Portugal tinha sido registado com um boletim de aposta simples no Fandino, quiosque localizado exatamente num dos cantos da reta que dá acesso ao estádio Comendador Joaquim de Almeida Freitas.

A vila pouco habituada a lançar foguetes graças a títulos e mais habituada a viver as subidas e descidas de divisão do clube da terra, viveu dias de euforia, arrendou os cafés e ruas aos diretos televisivos, viu as portas da Câmara Municipal serem-lhe abertas para uma receção que juntou autarcas e atletas, bem como dirigentes do Moreirense e do Vitória de Guimarães, e festejou até mergulhar numa angústia que lhe parece entranhada como entranhado está o tinto nas malgas de vinho verde usadas para os brindes.

É que exatamente depois do Moreirense ter conquistado de forma histórica a Taça da Liga, teve início a pior série do clube na I Liga nesta época 2016/17: dez jogos sem vencer. Deu-se segunda mudança de treinador: Petit substituiu Augusto Inácio à 26.ª jornada quando a equipa seguia em 16.º lugar. Antes, à 10.ª jornada e com o emblema na 18.ª e última posição, já tinha saído Pepa.

O hino diz que “o verde da esperança” pertence ao Moreirense e concretiza que o “pequenino, mas valente ganhou asas, voou alto e foi em frente e hoje é grande em Portugal”, mas alheio às ‘chicotadas psicológicas’ e à fome de vitórias, o calendário ditava últimas jornadas teoricamente impossíveis estando em causa não só a permanência, mas também a possibilidade de juntar ao título de campeão da Taça da Liga o de ‘resistente’ no campeonato.

Ainda que “pelo bem e contra o mal”, o ‘rótulo’ de ‘aflito’ teimou em acompanhar a equipa ‘cónega’ até à derradeira jornada, até uma última ‘final’, cuja tarefa se adivinhava estóica.

Às 18:00 de 21 de maio de 2017 um Moreirense com tudo para ganhar recebia um FC Porto descomprometido que entrava em campo ‘estacionado’ no segundo lugar mas com a honra para defender. À mesma hora Tondela, que recebia o Sporting de Braga, esperava um milagre para garantir a manutenção e ao Arouca, que jogava na casa do Estoril-Praia, só era exigida paciência e concentração.

Ouvidos postos no relato. Há golos no António Coimbra da Mota, o marcador está elétrico no estádio canarinho. Mas Boateng abre a contagem em Moreira de Cónegos com um cabeceamento após cruzamento de Rebocho. 16 minutos! Se ganhar o Moreirense passa. Só depende de si. 37 minutos: Frederic Maciel, que se estreava como titular, também se estreou a marcar pelos minhotos. 2-0! Se ganhar ao FC Porto, ao FC Porto, se o Moreirense ganhar ao FC Porto, passa! Só depende de si!! E eis um golaço de Maxi Pereira, aos 66 minutos. Os ‘azuis e brancos’ reduzem para 2-1. Em Tondela Heliardo e Kaká também já tinham posto o peticionário do tal milagre em vantagem. Se o Tondela ganhar ao Braga, ao Moreirense não basta só o empate. Petit manda fazer uma muralha junto à baliza de Makaridze. Mais jogadores houvesse e mais forrada de xadrez verde e branco estaria a área ‘cónega’. Brahimi e Corona encontram agulhas no palheiro mas o guardião georgiano está tão elétrico como o marcador do Estoril-Arouca. Bolas longas, chutos nervosos mas convictos, cortes milimétricos. Alex, emprestado pelo vizinho Vitória de Guimarães, faz o 3-1 para o Moreirense aos 83. Faltam sete minutos! São dados mais seis de compensação! Apito final em Tondela (2-0, perdeu o Braga). Apito final no Estoril (4-2, desespera o Arouca). Apito final em Moreira de Cónegos: o “pequenino mas valente” ‘agigantou-se’ e venceu 3-1 o FC Porto. Mantém-se na I Liga. Só dependia de si!!! “A glória dos campeões é feita na última batalha. Por ti, por nós, pelo emblema” – dizia a faixa mostrada pelos adeptos no arranque da partida.

Ao todo foram oito as vitórias e nove os empates. Número que dobra para 17 quando somadas as derrotas. O Moreirense acabou a época em 15.º lugar com 33 pontos, apenas mais um do que o primeiro emblema classificado condenado à despromoção, o Arouca, e muito aquém da melhor classificação de sempre do clube que é um nono lugar na temporada 2003/04.

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Mas manteve-se. Volta ao convívio com os ‘grandes’ lá para agosto na época 2017/18, tendo agora seis títulos: dois da II Liga (temporadas 2013/14 e 2001/02), três do terceiro escalão, atual Campeonato de Portugal, e uma Taça da Liga, a tal conquistada aos 29 dias do mês de janeiro de 2017, sendo presidente do clube Vítor Magalhães e volvidos 79 anos de história.

Foto: http://ligaportugal.pt/