Carta aberta aos jogadores do Vitória

Caro jogador do Vitória,

Sim, tu que trazes ao peito o emblema do Rei e que vais representar este grande clube e esta grande cidade no próximo Domingo na final da Taça de Portugal.

Já toda a gente te deve ter dito que este é o jogo da tua vida, que chegar à final da Taça de Portugal é uma grande responsabilidade, que esse símbolo que trazes ao peito impõe respeito, que tens de jogar como se não houvesse amanhã…

Esquece lá isso…

No Domingo quando pisares aquele relvado com a camisola do Rei vestida pensa no menino. Naquele menino que passava o dia inteiro a jogar à bola, que andava sempre com a bola atrás, que fazia de qualquer estrada um campo de futebol. Aquele menino para quem bastava ter duas mochilas a fazer de baliza, uma bola (nem sempre nas melhores condições) e os amigos do bairro para jogar futebol por horas infinitas. Aquele menino que a Mãe tinha de berrar bem alto e repetidamente para largar a bola e ir comer, fazer os trabalhos de casa ou ajudar nas tarefas da casa.

Lembras-te desse menino? Esse menino não queria saber do dinheiro, da fama ou da glória. Esse menino não queria saber se os árbitros estavam inclinados para este ou aquele lado (as próprias ruas eram inclinadas e mesmo assim ele conseguia marcar golos). Esse menino não queria saber se os adversários eram mais fortes do que ele, se tinham melhores chuteiras ou melhores equipamentos, ele ia sempre à luta como se fossem iguais (porque dentro daquele campo de futebol eram todos iguais: todos meninos que amavam jogar futebol).

Esse menino queria jogar futebol pelo puro e simples prazer que lhe dava. Esse menino jogava futebol com paixão e era capaz de passar horas infinitas a jogá-lo sem se sentir cansado porque a bola era o seu grande amor.

Esse menino sonhou toda a sua vida com a possibilidade de se tornar um jogador profissional de sucesso, de pisar os relvados dos estádios míticos, de vestir a camisola das melhores equipas do mundo. Hoje estás no melhor clube do mundo e não deixes que ninguém te convença do contrário (orgulha-te disso e deixa-nos orgulhosos)!

Esse menino foi crescendo e com ele cresceram os sonhos. Como os sonhos vieram também aqueles que nunca acreditaram que seria possível. Aqueles que deitaram esse menino abaixo. Aqueles que lhe disseram que ele não era bom o suficiente. Aqueles que lhe disseram que só com cunhas se entra no mundo do futebol. Aqueles que lhe disseram que jamais conseguiria ser um jogador profissional. Aqueles que hoje sabem que estavam enganados (é tão bom provar aos outros que conseguimos fazer aquilo que eles disseram que não conseguíamos, não é?).

Esse menino foi crescendo e o futebol deixou de ser praticado apenas na rua. Teve o seu primeiro treino (ainda te consegues lembrar do quão nervoso te sentiste?), o seu primeiro jogo (ainda te consegues lembrar da emoção de representar um clube pela primeira vez?) com os pais nas bancadas orgulhosos e dispostos a fazer todos os sacrifícios necessários para que um dia o sonho desse menino se tornasse real.

Pensa nas horas que o pai desse menino passou a treinar aquele passe que ele não conseguia fazer… Ou nos dias em que a mãe desse menino teve de se desdobrar em 2 ou 5 para poder levá-lo aos treinos, ir trabalhar (muitas das vezes em mais de um emprego) e ajudar os seus outros filhos nos trabalhos de casa… Pensa nos treinadores que apostaram naquele menino, que o convocaram e lhe deram a possibilidade de jogar (ainda te lembras do teu primeiro jogo como jogador profissional?). Lembra-te daqueles que sempre acreditarem nesse menino e de todos os sacrifícios que tiveram de fazer para que um dia o sonho desse menino se tornasse realidade. Lembra-te que esses mesmos pais, treinadores, família e amigos vão estar lá (fisicamente ou representados por nós – que a este ponto espero que já consideres família) a apoiar esse menino incondicionalmente.

Esse menino deve ter trabalhado mais durante a sua infância e adolescência do que muitos de nós numa vida inteira. Tudo isto baseado numa esperança de que algum dia alguém reconhecesse o seu talento e tornasse o seu sonho realidade.

Domingo, quando entrares naquele estádio repleto de gente cheia de sonhos lembra-te desse menino e lembra-te que todo aquele trabalho árduo e todos aqueles sacrifícios valeram a pena porque que um dia alguém te reconheceu, te deu valor e te entregou esta bendita camisola que muitos meninos, como tu, um dia desejaram vestir. Ela é tua! Ao longo de toda esta época mostraste repetidamente que a merecias e não é um jogo que vai estragar tudo isso. Usa-a com orgulho.

Domingo, quando entrares naquele estádio lembra-te daquele menino. Daquele menino que sonhava um dia ser jogador de futebol e joga como ele jogava: sem limites, com paixão e acima de tudo, aproveita o momento. Tu conseguiste! Contra todas as contingências, contra todos aqueles que algum dia te disseram que não conseguias, Domingo tu estarás no Jamor!

Domingo esse menino vai estar na Final da Taça de Portugal a representar o melhor clube do mundo com o apoio de uma cidade inteira que tudo o que deseja é que aquele menino cumpra os seus sonhos (que também são nossos) e vença a Taça de Portugal.

Se todas as lembranças do menino não forem suficientes, lembra-te que tens uma cidade inteira a apoiar-te incondicionalmente (não estão a exigir-te nada, não te vão odiar se a perderes) e a depositar todos os seus sonhos em ti. Acredita que cada uma das milhares de pessoas que estarão naquela bancada a apoiar-te 90 minutos sem parar (e até mais se formos a prolongamento e penáltis) daria tudo para vestir essa camisola e representar este grande clube que é de todos nós. Domingo lembra-te que não estás só, que fazes parte desta grande família que é o Vitória Sport Clube.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.