O povo é quem mais ordena

Para visitar ou passar por Eglisau, uma pequena vila Suíça, plantada, há séculos, na margem direita do Rhain (Reno), necessita de enfrentar cerca de três quilómetros de descida, nas duas margens, em curvas e contracurvas.

Passar de uma para a outra banda, era uma tortura e, como há sempre alguém com ideias, propuseram ao governo do Cantão (região) a construção de uma ponte que evitasse todo aquele transtorno.

Aprovado nas altas instâncias, o projecto é reprovado pela Junta de freguesia (Gemeind), com o argumento de que, a histórica vila, seria votada ao esquecimento.

Solução simples e eficaz: Perguntar ao povo!

Pergunta feita e respondida, não há ponte sobre o rio que evite Eglisau.

Lembrei-me deste referendo local porque, no passado dia 21 de Maio, realizou-se mais um, dos muitos que caracterizam aquele país da Europa central e que, ao contrário de Portugal, são 100% vinculativos.

Mesmo não sendo o tema deste artigo, sabe bem referir que, a pergunta colocada, era sobre a substituição do nuclear, por energias renováveis. 58,2% Disseram sim e, como consequência, haverá um progressivo abandono do nuclear, até 2050.

A Suíça, um país com menos de metade da área de Portugal, tem vinte regiões autónomas e seis sub-regiões (Cantões) e vive perfeitamente com a situação sendo, em minha opinião, o factor de desenvolvimento homogéneo do país.

Em Portugal, apesar de estar consagrado na constituição, nunca houve uma real vontade política, na implantação da regionalização.

O referendo de 1998, no qual participaram menos de metade dos Portugueses, foi realizado, com morte anunciada, pelos defensores do centralismo.

Uma tentativa de descentralização, atabalhoada e antidemocrática, foi levada a cabo pelo governo anterior ao actual. Feita a régua e esquadro, sem conhecer a realidade das freguesias e vontade das populações, mais do que unir, dividiu.

Tal como as CCDR’s, as CIM’s, as NUT’s e outras bizarras designações foram aparecendo, no intuito de disfarçar a falta de vontade e capacidade de cumprir a Constituição e entregar ao povo, as decisões que norteiam a sua vida.

Portugal continental é, senão o único, dos pouquíssimos países sem regiões autónomas e não se compreende que, apesar da sua situação específica, só a Madeira e os Açores, tenham direito a tal estatuto.

Repare-se na transformação da Andaluzia, ou da Galiza, que vai deixando para trás, regiões como o Minho e Trás-os-Montes.

O interior do país está a ficar, cada vez mais, desertificado e não será com pinceladas eleitoralistas, que se resolverá o problema.

Está mais que na hora, de nos libertarmos do estigma “salazarento”, de que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem.

Haja vontade e coragem, por parte dos povos, de tomar em mãos os destinos da sua região ou continuaremos a ser um país entalado entre o mar e a “bacoquice” de alguns espertos que, descendo a montanha ou atravessando deserto, se formaram em caciquismo, na capital.

Joaquim Teixeira é deputado pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Guimarães. É sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico