Todos nós precisamos de um abraço

O árbitro apita para o final da partida e a única coisa que eu penso naquele momento é o quanto eu quero abraçar Pedro Martins. Abraçar aquele homem que durante 90 minutos esteve ali à chuva – como nós – a comandar as tropas do Rei incansavelmente.

Queria abraçá-lo e dizer que vai ficar tudo bem – que na realidade está tudo bem – e o quão orgulhosa estou dele, o quão orgulhosa estou daquela equipa que lutou até ao último segundo, que deixou tudo em campo. Queria abraçá-lo e agradecer-lhe por esta maravilhosa época (que não deixa de ser maravilhosamente incrível pela falta de 1 golo que teimou em não entrar). Queria abraçá-lo e agradecer-lhe por nos ter dado o NOSSO Vitória de volta.

Queria abraçá-lo e dizer que não é justo que esta equipa resiliente que nos deu tanto durante esta época não tenha sido recompensada com a Taça. Não é justo que esta equipa não escreva o seu nome na História do futebol nacional. Não é justo que não possamos fechar esta época com chave de ouro. Não é justo que aquele estádio não se pinte de preto e branco para celebrar todo este trabalho e dedicação.

Queria abraçá-lo e contar-lhe o quão maravilhoso aquele dia foi:

Contar-lhe sobre a fila interminável de camionetas – da qual não conseguíamos ver o fim – cheias de adeptos munidos de camisolas, cachecóis e bandeiras que invadiu o Jamor. O piquenique na mata do Jamor. Os reencontros com os amigos que estão longe, os abraços calorosos dos amigos de sempre, as novas amizades… Os gritos de Vitória aparecidos do nada que nunca ficavam sem resposta, os cânticos que começavam com duas pessoas e acabavam com uma multidão a cantar em uníssono. O fairplay entre vitorianos e benfiquistas. Os elogios sobre o quão especiais somos que nos deixavam corados e orgulhosos de fazermos parte de algo tão especial.

A mata foi especial, mas voltar àquele estádio foi ainda mais. Foram quatro anos a sonhar lá voltar e nós fizemos questão de aproveitar cada segundo. As portas abriram com vitorianos ansiosos para entrar para o Estádio Nacional e em breves minutos o Topo Sul estava pintado de branco e com mais de 15 mil vozes que entoavam cânticos de apoio duas horas antes do jogo começar.

Falar-lhe sobre aquela gente que apoiou a equipa de maneira incansável antes, durante e depois do jogo. Aquela gente que quanto mais chovia mais persistia em cantar. Aquela gente que não só não permitiu que a chuva estragasse a festa, mas que cantou o Sou Vitória com alma e coração (foi tão bom fazer parte daquela moldura humana)! Aquela gente que fez o Jamor tremer com o viking clap. Aquela gente que mostrou ao mundo a força desta cidade.

Doeu. Foi desolador ver-vos em lágrimas, caídos no chão e não vos poder ir lá levantar. Foi desolador saber que todo o vosso trabalho, crescimento e dedicação ao longo da época não foi recompensado com aquela taça que nós tanto desejávamos e merecíamos.

Queria abraçá-lo e dizer o quão orgulhosa estou daquela equipa. Não sei se pensaram no menino, nos adeptos, na responsabilidade que tinham em estar ali, mas sei que saí de lá orgulhosa e convicta de que cada um deles deixou tudo em campo, que lutou, que acreditou e que honrou a camisola (eu estou tão orgulhosa de vocês! Não deixem que o resultado vos diga o contrário: vocês foram enormes, vocês foram a melhor equipa em campo)!

Queria abraçá-lo e dizer que lamento que o mundo não se vá recordar de vocês por esta conquista, mas que nós vamos sempre olhar para esta época com carinho e recordar cada um de vocês para sempre como membros da equipa que reflete tudo aquilo que nós adeptos esperámos do Vitória.

Os jornais persistem em dizer que “aqueles adeptos mereciam mais” e eu quero apenas dizer-vos que todos nós merecíamos mais. Ontem, à semelhança de toda esta época, não houve nós e vós. Ontem, à semelhança de toda a época, houve VITÓRIA – fruto de uma simbiose perfeita entre jogadores, equipa técnica, dirigentes e adeptos que juntos lutaram para ver este grande clube no lugar que lhe pertence.

Se há 13 anos alguém me dissesse que eu iria passar 90 minutos a cantar debaixo de uma chuva torrencial para apoiar 11 tipos que andavam a correr atrás de uma bola num campo de futebol eu diria que estavam completamente malucos, mas ontem eu senti-me a pessoa mais sortuda do mundo por ser uma daquelas 15 mil pessoas. Ontem eu senti-me agradecida por há 11 anos atrás ter entrado no D. Afonso Henriques e ter descoberto o que é amar o Vitória. Dizem que é amor… Eu não sei o que isto é… Eu continuo sem saber como explicá-lo… Eu não sei explicar porquê que tive 90 minutos debaixo de chuva a entoar cânticos de apoio. Eu não sei explicar porquê que mesmo depois de termos perdido a taça eu só me conseguia sentir feliz. Eu só sei que vos serei eternamente grata por há 11 anos atrás terem recebido esta geek sem quaisquer conhecimentos futebolísticos de braços abertos. O sentimento de inadequação sempre caminhou comigo, mas vocês fizeram-me sentir (e ontem mais do que nunca) parte integrante de algo. Há 11 anos que eu sou Vitoriana e não há nada que me orgulhe mais nesta vida. Obrigada por me terem dado uma família.

Nos últimos anos nós passámos pelo inferno e continuamos a caminhar (sempre juntos e isso é que faz do Vitória algo tão especial). Ontem queríamos mais e lutámos por mais. Não conseguimos, mas não podemos sair de queixos caídos (os Conquistadores só baixam a cabeça para beijar o símbolo do Rei, nunca se esqueçam disso). Ontem já passou e hoje só temos de pensar que nós somos finalistas da Taça de Portugal 2017, que esta final não é fruto da sorte, é o resultado de um longo caminho, de muita estratégia, planeamento e sacrifícios. Esta final e o quarto lugar são motivos de orgulho, mas são apenas o início do nosso regresso. Esta época foi boa, mas tenho certeza que o melhor ainda está para vir.

Ontem quando o árbitro apitou o final daquele jogo tudo o que eu queria fazer era abraçar Pedro Martins e dizer-lhe que tudo estava bem e que o melhor ainda está para vir. Juntos ainda vamos escrever muitas histórias bonitas.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.
Fotos: Cláudia Pires