Baleia Azul

«A educação de um filho começa vinte anos antes de nascer». Esta frase, dita por quem nunca foi à escola, é de uma sensatez extraordinária e marcou os seus descendentes, mais aqueles que se lhes juntaram.

Os primeiros pontos de referência, de uma criança, estão em casa. A mãe, o pai, os irmãos, se os houver, e toda a comunidade que vai descobrindo, ao longo do crescimento.

Noutros tempos, em que as famílias eram numerosas, as tias e os avós tomavam conta dos primeiros filhos, depois eram os mais velhos a “olhar” pelos mais novos.

Por volta dos anos setenta, instalou-se a moda do casalinho e posteriormente, passou-se a optar pelo filho único, porque não pode ser meio, diziam alguns, em tom de brincadeira.

Apareceram as amas, as creches e os infantários. Os pais, no desespero de “levar a vida”, passaram a ter cada vez menos tempo para os filhos. Estes, ainda mal acordados e levados para as “instituições”, tem um fugaz contacto com os pais que, ao fim de um dia de trabalho, cansados e ainda com tanto para fazer, pouca ou nenhuma atenção tem para lhes dar.

Quando chegados à idade escolar e perante as “perrices” daqueles diabretes, meio desconhecidos, resolvem o problema fazendo-lhes as vontades e caprichos. Nos fins-de-semana e perante o desespero do «Não sei o lhes faça», inscrevem-nos na catequese, escuteiros ou escolas de futebol. No entanto, ainda há muitas horas para preencher e a melhor solução é levá-los ao “fast-food”, acompanhados das maquinetas de jogos, empanturrando-os de gordura até ao cérebro.

Na escola, que há-de durar por toda a juventude, é preciso enfrentar todo um exército de filhos do consumismo, entrando na competição de ser mais ou ter mais do que…

Os pais, focados em cumprir compromissos, para os quais foram seduzidos, passam ao lado do crescimento dos filhos e, quando se dão conta, estão a olhar para cima. «Como o tempo passa!», dirão.

Enquanto não tiverem a humildade, de se porem de cócoras perante os filhos (há quem o faça, felizmente) e crescerem com eles, haverá sempre uma “Baleia Azul” que lhes trará a pior solução, no pior momento.

Joaquim Teixeira é deputado pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Guimarães. É sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.