“E a chuva pra nós é sol”

ú·ni·co
(latim unicus, -a, -um)
adjectivo

  1. Sem outro da sua espécie ou qualidade.
  2. Que só tem um elemento, uma unidade, um componente.
  3. [Figurado] Muito superior aos outros. = EXCEPCIONAL
  4. Sem precedentes.
  5. Que não se encontra facilmente. = EXCEPCIONAL, EXCLUSIVO, INCOMUM, RARO ≠ BANAL, COMUM
  6. Que é muito diferente dos outros. = EXTRAVAGANTE, SINGULAR

“único”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Esta semana, depois de tanto ler, ouvir, escrever e dizer esta palavra senti necessidade de visitar um dicionário para (re)descobrir o seu significado e devo admitir que este adjetivo nos assenta como uma luva.

Eu não me considero superior, nem melhor do que ninguém, mas quando se trata do Vitória, eu digo com orgulho e convicção que somos verdadeiramente únicos! Que somos os melhores adeptos do mundo, que temos uma paixão sem limites e que vivemos cada jogo como se a nossa vida dependesse disso.

Tão recorrente como “Somos únicos” é a expressão “Ninguém vai entender”. Ao longo desta época, e em particular ao longo desta semana, comecei a ter a sensação que esta hashtag vai precisar de sofrer alterações no futuro, que afinal os outros até começam a entender, começam a perceber este amor e acima de tudo, começam a valorizá-lo.

Eu não estou preparada para isto… Eu não estou habituada a estas coisas… Eu estou habituada a que Portugal nos odeie (ou pelo menos a que não goste de nós), ache que somos uns vândalos, nos trate com desrespeito e nos pergunte pelos títulos…

Estou habituada a ter sempre uma resposta preparada para todo o tipo de provocações, a sorrir e a ignorar algumas porque não valem o meu tempo. Eu estou habituada a ouvir os outros dizerem que não gostam de nós, que ninguém gosta de nós, que estamos sozinhos…

Durante esta época tivemos o Tondela a dizer que somos “a jóia da Coroa”, o Feirense a aplaudir-nos de pé no final do viking clap e a cantar votos de boa sorte para o Jamor. Durante esta época os vídeos do “Sou Vitória” cantado no D. Afonso Henriques foram partilhados pelo mundo e inundados de comentários simpáticos. Esta semana disseram que somos fantásticos, que é assim que se deve viver o futebol, que o futebol português nos deve muito, que somos únicos, que merecíamos ganhar tudo e mais alguma porque este amor é especial.

Esta semana até tive braguistas a demonstrarem admiração pelo nosso clube, a declararem que é um amor sem igual e que gostavam que na sua terra fosse assim (não é picardia, aconteceu mesmo)… E eu não sei como reagir. Eu não sei mesmo como reagir…

Digo obrigada e sorrio mas sinto que não é o suficiente. Nenhuma das muitas aulas de Comunicação e nem sequer as de Protocolo me ensinaram a reagir a este tipo de elogios. Eu sei escrever uma carta de agradecimento a um Presidente da República, mas não sei como agradecer por elogiarem o meu clube e a massa de adeptos (leia-se família) da qual orgulhosamente faço parte… acho que a minha educação me falhou…

Eu habituei-me a que os portugueses não gostassem de nós e é absolutamente incrível ver o mundo (sim, porque as imagens de 15 mil vitorianos a cantarem 4 horas sem parar debaixo de chuva torrencial e a simbiose entre equipa e adeptos no final do jogo correram o mundo) a render-se a este amor. Este amor incondicional que até faz com que a chuva para nós seja sol!

Eu sei que foi uma frase que apareceu fruto do momento que vivíamos (o facto de ser entoada ao ritmo da mesma música que o Benfica havia cantado “E o Benfica é campeão” 2 semanas antes torna isto ainda mais interessante), mas tenho que tirar o chapéu à nossa incrível claque e dizer que que a frase “E a chuva pra nós é sol” representa tudo aquilo que é ser vitoriano.

Dizem que o corpo não tem memória de dor, vive-a, mas consegue, de certa forma esquecê-la. Provavelmente a maioria das pessoas já não se lembra, mas choveu torrencialmente no verão passado. As pessoas não se querem lembrar… As pessoas “normais” bloqueiam não só os dias chuvosos, mas também os infelizes, os aborrecidos, os dolorosos, os solitários.

Para onde foram os verões repletos de sol de antigamente? Às vezes pergunto-me se eles existiram mesmo ou são apenas fragmentos das memórias felizes da nossa infância, criadas com muito, mas muito mais esplendor nas nossas lembranças…

Será que daqui a alguns anos quando nos lembrarmos desse esplêndido 28 de Maio de 2017 (eu não consigo caracterizá-lo negativamente, desculpem, mas não consigo) nos vamos lembrar da chuva? Sinceramente, e como até nisto somos únicos, eu acho que sim.

Quando aquela chuva começou a cair no Jamor a minha reação automática foi levantar as mãos ao céu e sorrir. Enquanto os benfiquistas retardavam a sua entrada no estádio com medo da chuva eu olhava para aqueles lugares vazios e só me vinha à mente o discurso do Bane (sim, o Vilão do Batman):

“Ah, vocês pensam que a chuva é vossa aliada? Vocês simplesmente adotaram a chuva. Nós nascemos nela, fomos moldados por ela. Nós não vimos o sol até sermos homens e mulheres crescidos, até aí ele não era nada para nós senão ofuscante” (adaptado, ele fala de escuridão).

Nós, vitorianos, temos uma grande vantagem em relação aos outros: nós crescemos com a chuva, nós aprendemos a ser felizes com ela. A chuva faz parte da maioria dos nossos jogos e há muito que nos habituamos a não a odiar, mas a senti-la como parte integrante do espetáculo (ainda me lembro de ouvir Manuel Cajuda a falar do quão difícil foi jogar com 32 graus de temperatura no D. Afonso Henriques, mas não tenho nenhuma memória de ouvir algum elemento do Vitória a reclamar de chuvas torrenciais – se calhar aconteceu, mas a minha mente faz questão de não se lembrar).

Enquanto os outros persistem em esconder os seus momentos maus e em enaltecer as suas glórias, nós insistimos em mostrar que estávamos lá nos longos dias de chuva da segunda divisão, que não deixamos que as nuvens cinzentas nos assustassem ou afastassem e que as vimos como fonte de energia para voltar a elevar o Vitória. Custou, mas o sol acabou por vir e nós voltamos mais fortes e com a família ainda maior e mais unida.

Não me entendam mal, nós não desejamos a chuva, não desejamos os dias maus, mas temos a incrível capacidade de saltar e cantar à chuva em vez de passar o tempo todo a reclamar dela. Nós não nos acomodamos com a chuva, nós desejamos os dias de sol tanto ou mais do que os outros, mas para nós existe algo muito mais importante que os dias de sol, muito mais importante que as vitórias, muito mais importante do que as taças: este amor incondicional que é capaz de pôr 15 mil pessoas a cantar à chuva durante mais de 4 horas.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.