A Ciência do Amor

Em 2014, durante a minha licença sabática, estava a trabalhar num dos laboratórios da Universidade de Harvard, nos Estados unidos, e num certo dia fomos interrompidos pelo diretor do laboratório que pediu que parássemos as nossas atividades para receber uma colega que acabava de chegar ao grupo. Fiquei inicialmente surpreso pelo gesto de termos interrompido tudo para a receber com uma pequena “festa” de circunstância.

Quando tive oportunidade de cumprimentar e felicitar a colega chegou a segunda surpresa: ela demostrava um conhecimento detalhado sobre o nosso país e sobre Guimarães. Percebi um pouco mais tarde que mais não era que o resultado de nove viagens que já tinha feito a Portugal. Na sequência da conversa, disse-me que era bióloga e que tinha estado antes a trabalhar três anos num instituto de Neurociência e Neurobiologia da mesma universidade. E quando eu, curioso, quis saber o tema em que tinha estado a trabalhar, veio a surpresa maior, disse-me que tinha estado a trabalhar na Biologia do amor. Fazia parte de um grupo multidisciplinar na área da Neurociência que, há mais de 20 anos, se dedicava a investigar vários aspetos do cérebro e, no caso dela, sobre as razões que estão na base do surgimento do “amor romântico” (do inglês romantic love), ou por outras palavras, do amor ou da forte atração entre pessoas não familiares.

Ao pensar sobre o assunto, ocorreu-me que se havia algo que consideraria muito pouco “científico” e preditivo seria o amor. Pois bem, a colega foi-me dizendo que há vários cientistas que discordam dessa visão e que entender como surge o amor, em particular o amor apaixonado, tem sido o motivo de investigação científica desde há algumas décadas.

De entre os vários grupos dedicados ao assunto, um deles tem particular visibilidade, sobretudo resultado de vários livros e palestras da professora de antropologia e investigadora sobre o comportamento humano, Helen Fisher. Há cerca de 20 anos, Fisher estudou mais de 160 diferentes sociedades e encontrou evidências de amor romântico em quase todas elas. E é esta abrangência do fenómeno que parece levar estes investigadores a acreditar que o amor romântico tem sido mantido nas sociedades por algo que está enraizado na nossa natureza biológica. Vários estudos nesta área foram sendo desenvolvidos no domínio da Psicologia e Psiquiatria, havendo outras duas áreas que se têm mostrado particularmente promissoras: a Biologia e a Neurociência.

Fisher, cujo trabalho conheci pela primeira vez ao assistir online às suas populares palestras nas conferências TED, diz saber exatamente o que acontece quando duas pessoas se apaixonam. Segundo ela, enquanto a compatibilidade de longo prazo depende muito de fatores culturais e contextuais, como o status social, a história de vida, as origens, os gostos, etc., o que faz com que haja, ou não, um despertar de paixão num primeiro instante é a medida do quanto as personalidades são compatíveis. Isto, uma vez mais, não parece ter nada de cientifico, mas é aqui que entra o trabalho de Fisher e de uma equipa mais alargada de cientistas. Depois de muita análise, incluindo a realização de exames cerebrais por ressonância magnética num número muito elevado de pessoas, chegaram a várias conclusões. Uma delas é que há quatro produtos químicos que desempenham papéis de relevo neste processo, determinando quem somos e por quem somos atraídos: duas hormonas sexuais, a testosterona e o estrogênio, e dois neurotransmissores, a dopamina e a serotonina. Estar apaixonado, por exemplo, parece fazer disparar os níveis de dopamina, uma substância que ativa o chamado “circuito de recompensa”, fazendo com que o amor possa ser uma experiência agradável similar à euforia associada ao uso de álcool ou cocaína.

A forma como nos apaixonamos tem sido estudada intensivamente na área da Psicologia e existem, com toda a certeza, múltiplas explicações para este complexo fenómeno, talvez muitas delas ainda não conhecidas. A mais simples indica que o amor pode acontecer quando duas pessoas têm personalidades e interesses comuns ou que se complementam de forma apropriada. Contudo, por vezes entramos numa local cheio de pessoas com o mesmo nível de inteligência, a mesma origem cultural, os mesmos gostos, a mesma aparência, etc., mas só uma dessas pessoas nos chama a atenção, nos coloca o coração a palpitar… por isso os investigadores acham que a Biologia tem um papel muito relevante nestes processos, sobretudo ao nível de cérebro e das reações bioquímicas no mesmo.

E não se pense que este é o tipo de investigação que não tem aplicação prática ou cujos resultados não interessam, por exemplo, ao tecido económico. Na prática, parte desta investigação tem sido profusamente financiada por empresas que estão nos mercados um pouco por todo o mundo. Que empresas estariam interessadas nestes resultados? Podemos pensar em vários casos, mas os resultados destes trabalhos têm usados pelas, cada vez mais emergentes, plataformas online de encontros e namoro, as quais usam estes conhecimentos científicos para otimizarem os seus algoritmos de compatibilidade entre clientes, tentando aumentar significativamente o sucesso das suas aplicações.

As aplicações práticas deste conhecimento, bem ou mal sucedidas, não se ficam por aqui… Fisher conta um episódio engraçado sobre um dos alunos de doutoramento, e colaborador do grupo de investigação, que estava perdido de amores por uma outra aluna de doutoramento, sendo que ela, contudo, não aparentava retribuir esse interesse. Ele sabia, pelo seu trabalho, que termos uma experiência nova e excitante com alguém poderia originar uma libertação de dopamina no cérebro e, dessa forma, despoletar o sistema cerebral para um amor romântico. Por isso, decidiu colocar a ciência em funcionamento e convidou a aluna para uma viagem com ele de riquexó pelas estreitas ruas da cidade antiga. A experiência, a ser como ele esperava, seria absolutamente nova para ela. Ziguezaguear pelas ruas estreitas da cidade antiga, desviando-se de veículos e pessoas, fazendo curvas apertadas sempre de forma veloz, fariam com que tudo na experiência pudesse ser excitante. A ideia dele era que, ao estimular a libertação da dopamina, ela fosse capaz de se apaixonar perdidamente por ele. E assim lá partiram ambos para a experiência. Ela gritava e segurava-se a ele, apertando o seu braço com força quando se assustava e durante toda a viagem pareciam estar a divertir-se bastante.

Quase uma hora depois, eles saíam do riquexó e ela, ainda meia atordoada com a experiência, virou-se para ele com manifesta excitação e disse-lhe:
– Não foi maravilhoso? E aquele condutor do riquexó não era lindíssimo?
Talvez a saudosa Amy Winehouse tivesse alguma razão quando escreveu a canção “Love is a losing game”.

Pedro Arezes, 44 anos e natural de Barcelos, é Professor Catedrático na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e Diretor Nacional do Programa internacional MIT Portugal (www.mitportugal.org). Tendo orientado mais de 100 teses e dissertações, é coautor de mais de 400 publicações científicas. Ao longo dos últimos 20 anos, foi palestrante convidado em mais de uma centena de palestras em cerca de 15 países.