Estranha-se e nunca se entranhará!

Crescemos com a ideia de que uma vez arranjando um emprego este seria para a vida. O posto de trabalho poderia mudar, através da experiência, talvez com as qualificações que se iam adquirindo e os salários tenderiam a subir.

Mais tarde começamos a ouvir dizer que mesmo trabalhando 15 ou 20 anos na mesma empresa o salário continuaria a ser o mesmo, ao invés de se conquistar um salário digno, que respeitasse os anos de casa e o “saber fazer”.

Quando chegou a hora de trabalhar, mesmo pertencendo à geração mais qualificada de sempre, percebemos que à nossa espera existia um emprego precário. À nossa espera apenas a instabilidade, a fragilidade, a exploração e a falta de futuro.

Os professores que em Junho ficam sem trabalho, não sabem se em Setembro voltarão a ter lugar nas escolas. E para o garantirem terão que andar com a “casa às costas”, sem oportunidade de sonhar, de casar, de ter filhos quem sabe de estabilizar. Este caminho de precorrer o país e construído de incertezas é feito durante 5, 10, 15 20 anos de precariedade.

O mesmo acontece aos investigadores científicos que não sabem se lhes serão renovadas as bolsas e a emigração é quase sempre a oportunidade garantida para quem sonhou contribuir e dignificar a investigação cientifica portuguesa. Não lhes é reconhecido o valor e a cada novo governo que surge assistimos à insensibilidade em relação a este grave problema nacional. Portugal investe na educação e na formação de grandes investigadores, mas reserva-lhes um bilhete de avião para fazerem sucesso lá longe.

Poderíamos pensar que isso só aconteceria no sector privado, mas o Estado dá um muito mau exemplo.

Nos nossos dias, existem milhares de trabalhadores a prazo, em todas as áreas da Administração Pública. Da saúde, à educação, à justiça, à cultura, aos portugueses fica reservada a degradação do serviço público.

Existem urgentes necessidades de mais trabalhadores, devido a vários factores, aposentação e a outras saídas, que o Estado teima em  não substituir e assim sendo não é possível prestar serviços de qualidade à população.

Acabar com a precariedade é exigir em primeiro lugar que a um posto de trabalho permanente corresponda um contrato de trabalho efectivo, mas também um posto de trabalho que nos garanta o direito à habitação, à alimentação, e não apenas às necessidades básicas, também à cultura, ao lazer, o direito a viver. É contribuir para a evolução da economia do país, com a subida de salários e do poder de compra.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.