Diana, Diana, Diana

Alma copiada

O meu nome é Diana e nasci em Guimarães.

E isso aconteceu no hospital velho. Sempre dizia, a minha avó, que já ninguém nasce naquele hospital esquecido, agora. E ter lá cegado com os primeiros raios de luz parece ser algo digno para um Vimaranense, como se maior honra houvesse em brotar para a vida junto das fortalezas do castelo, ou qualquer coisa que o valha. O certo é que sim. Sinto um desnecessário orgulho em ter nascido naquele velho hospital.

Cheguei hoje ao meu lugar primeiro. Vim no embalo da eterna viagem do urbano amarelo que me traz desde Campanhã. Uma lindeza tal viagem. A fazer tanto recordar a fresca juventude, as idas ao Porto, as manhãs de regresso, os apeadeiros misteriosos, a ansiedade em ouvir dizer que Covas é a próxima paragem.

Soube-me muito bem descer a avenida D. Afonso Henriques como se não soubesse ter uma furiosa pressa de chegar. Fi-lo reconfortante, ao saber das árvores que ainda protegem a calçada onde tanto passado jaze, como se cada pequeno cubo de calcário fosse uma lápide de alguém da terra que tivesse o que contar.

É irresistível desviar em Vila Flôr e recordar a felicidade tamanha que ali saltitou em dois mil e doze, o ano em que também parti para Berlim. Espreito o horto e as pedras. Sinto-me um fiscal conterrâneo, uma cavaleira do reino que apenas verifica a correcta manutenção da seara. E desço mais. A minha avó vive em Couros. É sempre a mulher que primeiro vejo. Ela não sabe. Nunca sabe quando lhe abro a porta velha das traseiras e lhe afago os gatos até que me sinta. Depois é uma alegria. Há sempre bolo mármore ou cavacas.

Por muito que esta cidade cresça vou sempre sentir que retomo a um pequeno lugar. O prazer de caminhar desde Creixomil à Costa não se degusta em nenhuma outra parte. E é esse caminho que farei com a Camila hoje à noite. A Camila é a minha alma copiada, a minha irmã emprestada, e vive em Creixomil. Vai ser bom. Tenho tanto para contar. Quero falar-lhe das cartas. Três cartas que nunca abri. Estes envelopes ainda pouco amarelados que dizem o meu nome. Três. Iguais. Diana, Diana, Diana. É só o que dizem por fora. Dentro, nunca quis saber. Melhor, quis. Não houve coragem. Trouxe-os comigo. Quero falar deles. Queria falar dos retratos, também, em cima do meu piano.

Eu e a Camila, mais logo, hoje, sexta-feira, no Largo da Oliveira. Vai ser bom. Já sei que chorará. Nada que não se cure com um bom trago de Macieira na tragédia sonora do Salado Bar.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.