Futebol atrás das grades

Eu adoro futebol! Eu tento acompanhar ao máximo possível o futebol europeu, mas eu não tenho paciência para estar 90 minutos em frente a uma televisão a ver um jogo de futebol. Vejo vários jogos, mas é muito raro eu estar 45+45 minutos seguidos a fazê-lo.

Os jogos do Vitória fora são a rara exceção em que eu consigo estar os 45+45 minutos colada ao ecrã e isto porque os vejo em família e criamos uma espécie de miniestádio onde quer que estejamos a ver os jogos. Eu visto-me a rigor, mantenho as mil e uma superstições que faria se fosse ver o jogo ao vivo, canto para apoiar a equipa, berro com o árbitro e na maioria dos cafés em Guimarães consigo sentir-me como se estivesse verdadeiramente no estádio.

Mas, sinceramente, não é isto que eu gosto no futebol… Eu gosto de ver futebol ao vivo no estádio. Gosto de estar no meio da multidão 90 minutos sem parar de cantar. Gosto de discutir o Vitória com conhecidos e desconhecidos. Gosto de estar com os amigos. Gosto de berrar até que a voz me doa. Gosto de fazer ondas. Gosto de fazer “cachecoladas”. Gosto de insultar o árbitro (não o façam, é feio, mas é uma grande terapia). Gosto de aplaudir o Marega quando ele falha e gritar “Força Marega” para dar-lhe mais forças (eu sei que ele não deve ouvir, mas eu tento pelo menos). Gosto de berrar para que o Pedro Martins meta determinado jogador (e sentir-me feliz da vida quando ele “me ouve”). Gosto de apanhar banhos de sol e de cantar à chuva. Gosto de me sentir parte do evento (afinal de contas foi isto que me fez apaixonar pelo futebol).

Todas as semanas, adeptos como eu, deslocam-se aos estádios nacionais em busca de entretenimento e jogos de futebol emocionantes. As organizações desportivas cansam-se de repetir que “os adeptos são a essência do futebol” e que “devem poder desfrutar da atmosfera festiva e celebração sem preocupações acerca da sua segurança ou bem-estar” (frases retiradas do site da UEFA), mas sinceramente eu começo a deixar de acreditar que seja isso que a Liga Portuguesa quer…

Eu costumava ir a (quase) todos os jogos do Vitória fora de casa…

A minha primeira deslocação foi ao Belenenses. O Vitória estava com um pé na Champions League e os vitorianos pintaram o Restelo de preto e branco para apoiar a equipa. Eu não faço a mínima ideia de como ficou o marcador naquele jogo, mas ainda me recordo da cordialidade com que o speaker do Belenenses nos recebeu, da simpatia dos adeptos da casa, das boas condições do estádio (as casas de banho podem não ser do melhor, mas em comparação com o que eu vi por esse país fora são ótimas) e do Fair Play que se viveu dentro e fora do estádio. Eu adorei tanto a experiência que 3 meses depois fiz a maior deslocação de sempre (para mim) até ao estádio da Equipa-Cujo-Nome-Não-Deve-Ser-Pronunciado para apoiar o Vitória no nosso sonho de estar na Champions League.

Ao longo de muitas épocas eu viajei por esse país fora (Europa até, mas isso não interessa para esta conversa) para apoiar o Vitória. Tive experiências extraordinárias, conheci pessoas fantásticas, celebrei, cantei, chorei, berrei, aplaudi. Por incrível que pareça, por vezes senti-me mais parte integrante do Vitória nos jogos fora do que nos jogos em casa (o ambiente dos jogos fora é maravilhoso).

Tive também péssimas experiências. Até hoje ainda não consigo explicar como saí ilesa do Estádio do Mar depois de ficar presa entre duas escadas e ter toda a bancada dos adeptos visitantes – vitorianos – a saltar por cima de mim enquanto fugiam dos polícias que acharam que subir a uma rede para aplaudir os seus jogadores no final de um jogo era um ato tão criminal que merecia ser severamente punido…

Depois de vários anos de deslocações eu cansei-me de ser tratada como uma criminosa, de ter de ser revistada minuciosamente como se fosse uma terrorista… De ver apenas metade dos jogos de futebol por “medidas de segurança”, de não poder estar identificada com o emblema da minha equipa porque isso iria colocar-me em risco.

Cansei-me de ver jogos de futebol em estádios sem as mínimas condições, de usar casas de banho indecentes e de apanhar banhos de chuva porque os clubes não são obrigados a ter zonas cobertas para as equipas visitantes.

Eu admiro profundamente aqueles que continuam a sujeitar-se a este tipo de situações para poderem apoiar o nosso clube, mas está na hora de dizer BASTA!

Na época passada a Liga procedeu à certificação dos estádios e aquilo mais pareceu um programa da Oprah – “Tu tens certificação! Tu tens certificação! Toooooooooodos têm certificação”!

Um número demasiado elevado dos estádios das equipas que competem na primeira divisão não tem zonas cobertas para os adeptos visitantes. Como é possível que num país cujo campeonato se realiza maioritariamente em períodos de chuva TODOS os estádios não sejam obrigados a ter zonas cobertas para todos os adeptos? Quem concedeu essas certificações não se deu, com certeza, ao trabalho de visitar uma casa de banho de adeptos visitantes porque senão eu garanto que pelo menos 20% (e sendo simpática) dos estádios não teria certificação que lhe permitisse continuar a receber jogos de futebol profissionais (muito menos da Primeira Liga).

Eu tenho noção que a segurança dos espectadores e de todos os envolvidos deve vir em primeiro lugar – até mesmo antes da diversão -, mas estamos a levar isto longe demais (e ignorando completamente as necessidades dos adeptos) …

A Liga acaba de promulgar a obrigatoriedade de redes de segurança em todos os estádios (sendo esta medida obrigatória a partir da época 2018/19). Eu sinto muito, meus caros senhores, mas depois de pagar um valor (demasiado) elevado por um bilhete para ver um jogo num estádio com más condições, de ter entrado apenas na segunda parte do jogo e de ser revistada como se fosse uma criminosa, a última coisa que eu quero fazer é ver um jogo através de uns quadradinhos. Eu sei que os filtros estão na moda, mas deixem-nos para o Instagram e para o Facebook porque eu quero mesmo é VER um jogo de futebol.

Eu não cometi nenhum crime, eu apenas quero ver e apoiar o Vitória. Eu não preciso nem mereço ser enjaulada para o fazer. Eu só quero poder viajar pelo nosso maravilhoso país, confraternizar com os adeptos de outras cidades e viver o futebol como ele foi planeado para ser vivido (no estádio e não através da televisão), mas enquanto isto permanecer assim as minhas deslocações continuarão a ser, com muita pena minha, as mínimas e extremamente bem escolhidas para que as possa viver em família.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.