O Pecado Original

Maria das Dores, tal como todas as meninas da sua geração, nasceu com o pecado original. Facto que, anos mais tarde, ninguém sabia explicar-lhe, dado que não se lembrava de ter cometido qualquer erro, antes de nascer.

Crescida numa família de agricultores, cedo procurou e encontrou, alternativa à condenação estreita do “sol a sol” analfabeto, numa empresa têxtil.

Trabalho, salário e possibilidade de frequentar as festas e namoricos, nas freguesias vizinhas.

A habilidade de se esgueirar, entre viras, malhões e avanços da rapaziada, durou até descobrir que estava grávida.

Desprezada pela família e abandonada pelas companheiras dos arraiais, viu-se a braços com o segundo pecado original: Mãe solteira!

Na ânsia de resolver o problema, procurou trabalho noutra terra, onde não era conhecida e, ao fim de algum tempo, conheceu o Manel, homem de sueca na tasca, que não tinha disposição de procurar fora, o que todas lhe tinham negado na terra.

Em poucos meses casaram e, com uma surpreendente regularidade, começaram a chegar os filhos, sob o olhar condenatório da sociedade “bem comportada” da terra.

Com a chegada dos filhos, Maria das Dores dava início a uma epopeia gigantesca: Regenerar o nome e tornar-se parte da sociedade.

Rezar o terço três vezes por dia, novenas a todos os santos e santas mais conceituadas na aldeia, organizar vias-sacras, juntamente com as senhoras mais influentes, durante a quaresma, enfim tudo servia para reparar os pecados cometidos desde a nascença.

Os anos passaram, a luta persistia e toda a aldeia a olhava com admiração, não pelo objectivo que, provavelmente, não conheciam, mas pela tenacidade com que transportava a bandeira da fé.

Certo dia, os cabelos branqueados e as rugas cada vez mais profundas, Maria das Dores baixou os braços, mandou toda aquela seita para sítios inomináveis e disse:

“Afinal, o pecado original nem é meu. Fizeste-o? Então comei-o!” E, sem se despedir de ninguém, foi-se embora.

Joaquim Teixeira é deputado pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Guimarães. É sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.