A Tragédia de Pedrógão Grande

Em 25 de novembro de 2016 escrevi, para o Duas Caras, um texto onde abordava os múltiplos malefícios a que estávamos a sujeitar o nosso planeta, aumentando exponencialmente as tragédias causadas pelas alterações climáticas, um pouco por toda a parte.

Os cidadãos, em geral, preocupam-se com a sua já difícil vida quotidiana e não têm tempo para se debruçarem sobre o que se vai passando na nossa casa comum, sobretudo se tais fenómenos acontecem, geograficamente, longe de nós. Este distanciamento fragiliza-nos a perceção que deveríamos ter do que climatericamente está a mudar. Se mais avisados estivéssemos do que se passa, ainda que à distância, não seriamos tão facilmente surpreendidos quando a desgraça nos bate à porta.

Todos sabemos que sempre que a natureza resolve vingar-se dos males que o ser humano lhe causa, reage com uma intensidade quase demoníaca, a cujos estragos não nos podemos furtar.

É conhecido dos especialistas desta temática que ninguém escapa aos efeitos das alterações climatéricas que, meteoricamente, estão a alterar a vida de todos nós. Nenhum país, por mais poderoso e rico, deixará de sofrer as graves consequências que estas mutações implicam.

Então, por que não tentamos minimizar, à nossa escala, os hipotéticos problemas que sabemos virão ao nosso encontro? A resposta é, simultaneamente, simples e complexa. É simples, porque salta à vista de todos nós a complexidade do problema. Difícil, por mexer com um ancestral conceito de vida e exigir uma concertação de vontades nacionais, com custos, materiais e imateriais, elevadíssimos. Ponderados os prejuízos que as alterações do clima portam no seu ventre, valeria a pena tal esforço coletivo.

Se continuarmos a agir como até aqui e provavelmente é o que vai acontecer, continuaremos a escutar os habituais profetas da desgraça que, perante a catástrofe, nos esmagam, física e psicologicamente, tentando encontrar a agulha no palheiro na nossa incapacidade coletiva.

Os que deviam ser pedagogos a anteriori não o fazem em tempo útil, mesmo tratando-se de um serviço imaterial a prestar aos seus “clientes”. Impunha-se uma informação, minimamente habilitante, sem esconder as verdades dos factos e preparando-nos para similares problemas do amanhã.

No auge da tragédia tudo muda, solta-se a mediocridade a que deveriam poupar-nos e que às vezes soa a massacre, tão repetitiva é. O papel social que também desempenham e ao qual viram as costas, permite-lhes explorar a dor de gente simples e humilde, ao mesmo tempo que enfatizam os erros que no “campo de batalha” sempre acontecem, surgindo impantes, no seu papel que não procura a solução do problema em causa, antes o deforma.

Dito isto, os que tentam tirar partido da desgraça alheia podem ter a certeza que no futuro, mais próximo que distante, vão ter fartas hipóteses de prosseguir neste ínvio serviço que prestam ao país. Infelizmente, fenómenos semelhantes aos que a todos nos chocam, aqui ou ali, vão ser cada vez mais presentes no nosso dia-a-dia.

O país, com a colaboração de todos, tem que interiorizar primeiro o que climatericamente está a verificar-se. Depois, urge tomar medidas, de médio e longo prazo, visando esbater as consequências do que aí vem. Só com uma população minimamente informada e disponível para aceitar alteração de comportamentos, poderemos minimizar os efeitos de uma batalha que a natureza continuará a travar connosco.

Na tragédia que hoje abordamos, ainda que episódica, quem deu o pior e o melhor contributo para a mesma, foi o clima. Um raio tudo incendiou. O esforço combativo de tantos e tantos, que se aplaude, minorou as desgraças daquela gente. A chuva e a baixa de temperatura, quase tudo apagou.

Quem nos garante que um novo golpe de calor, resultante das alterações climáticas, não volta a acontecer a curto prazo? Então, faça pedagogia quem tem de a fazer. Preparem-se os responsáveis para enfrentar o pior e que a população, não atingida por esta desgraça localizada, pense que outra similar pode vir por aí, a curto prazo, atingindo outras paragens. A prevenção e a atitude positiva de todos pode poupar-nos um pedaço da nossa aldeia, do nosso país e do planeta em que vivemos.

Honra para todos os voluntários que, nesta tragédia, deram o seu melhor por tão nobre causa.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).