As setas de fogo!

Com os dias quentes chegam as romarias e as festas populares. Hoje enquanto escrevo lá vou ouvindo os foguetes a darem início à festa. Mas apesar das temperaturas terem baixado o tempo continua seco.

Tão seco como os minutos de silêncio que fazemos em memória daqueles que perderam as suas vidas a fugir do fogo. No fim do minuto lá voltamos, uns mais consternados que outros,  para as nossas vidinhas, para o pão com chouriço, o fininho bem fresco e a acompanhar uma ou duas teorias sobre o tema da semana.

Todos vão afirmar a pés juntos que a culpa é dos mesmos: “Aqueles que por lá andam a fazer leis e a ganhar o deles à custa do povo, contudo na hora certa tudo falha, porquê? Porque não andam lá a fazer nada, são todos iguais.”

No entanto, entre o cheiro a sardinha assada que me entra pela janela e movida pelo espírito da festa Afonsina que teve o seu início ontem, sou capaz de vos escrever a relembrar que “Os Verdes” não são iguais e tanto não o são que no acordo que assinaram com o PS em 2015 incluíram um ponto que refere a reforma da floresta e a necessidade de travar o aumento dos eucaliptos.

Podemos fazer muitos estudos e esperar que mais um ano passe até que a floresta portuguesa esteja toda queimada e assim já não corremos o risco de arder mais nada. Ou podemos olhar para a realidade que está à nossa volta e que não queremos ver.

O interior abandonado à sua sorte, os eucaliptos que dão dinheiro rápido (só a alguns, aqueles que não utilizam os seus sapadores e os seus helicópteros para apagar os fogos nos terrenos a quem compram os eucaliptos por tuta e meia), o desinteresse pela requalificação da nossa floresta, a falta de apoios aos que desejam apostar numa floresta autóctone, a extinção do Corpo de Guardas Florestais e que seriam capazes de identificar e proteger o nosso território.

A nossa floresta deve e pode ser protegida por cada um de nós, mas ao chegar a chuva e o frio não podemos esquecer qual a parte que nos compete. E esta parte exige mais de cada um de nós do que ligar para as linhas de apoio que surgem como cogumelos nas nossas televisões.

Exige que compremos os produtos frescos ao produtor local, que voltemos aos mercados tradicionais, que sejamos capazes de exigir de quem nos governa políticas que não nos obriguem a emigrar, que não retirem os serviços públicos do interior, que não isolem as populações sem direito ao transporte público.

Já ouviram isto em qualquer lado, não é?

Em 2016 ouvi da boca dos nossos heróis, os bombeiros, que a única solução para os fogos florestais, com mais incidência no Verão, passaria por uma forte aposta na prevenção. Não gastaríamos tanto dinheiro, tantos recursos e hoje não estaríamos a chorar tantas mortes inocentes.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.