Diana, Diana, Diana

Vitória e não morrer

Hoje foi um dia de futebol. Fez anos que não entrava no estádio. Alguém do meu coração tirou de uma cartola um bilhetinho para me oferecer. E eu lá fui, como nos velhos tempos, para o alto da bancada que se põe a sul. O meu velho cachecol que amarro ao pulso, o tremor do chão, os gritos e os sorrisos, os palavrões de vergonha alheia. Vitória! É uma alegria. Ganhamos, hoje, que marcamos três e os outros dois.

Hoje foi um dia de futebol e com ele veio-me uma lembrança preocupante. Não é que no turbilhão de gente que me acompanhava depois do fim da partida, que me pareceu ver Issa? E quem será Issa, perguntam. Ora, Issa Mei é uma das pessoas que permanecem intocáveis, emolduradas à cabeça do meu piano. Hoje pareceu-me vê-la por entre a multidão vitoriana. Um susto. Um arrepio. Ela não era, naturalmente, mas bastou para que me lembrasse que estou ainda terrivelmente preocupada com essa criatura. O motivo? Não vão querer ter vontade de acreditar…

Isto passa-se em Berlim e é um pouco da história de Issa Mei:

Berlim é um lugar de cores, de arte, de liberdade, de futuro. Há, cada vez mais, naquela cidade, uma imposição de muitas culturas do mundo. Aqui, estou a falar da cultura japonesa, que amiúde tenho vindo a conhecer às custas da amizade que moldei com Issa, e que é uma cultura ainda submersa nos lugares menos visíveis da metrópole.

A minha amiga oriental é uma pessoa incrível, uma rapariga sonhadora que sabe exatamente o que é não ter absolutamente nada na vida. Disso posso contar noutro dia.

Imaginem uma rua muito estreita, de muita pedra, húmida, bafienta, escassa de esgotos e cestas para colocar o lixo. Imaginem que nessa rua vive imensa gente do oriente, quase todas irremediavelmente na clandestinidade de que se diz, libertinas, felizes e desconfiadas. Imaginem essa ruas, e que numa  das vulgares portas mal atadas ao tijolo descoberto dessa rua há um acesso a um espaço misterioso. Se imaginam, imaginam bem. Isso existe e é onde Issa Mei passa a maior parte das horas dos seus dias.

O espaço, a “Arena da Morte”, como lhe chamam, é um espaço assim:

Depois de se percorrer um corredor fétido, escuro, de paredes de barro duro, surge uma imponente porta de abrir em dois que nos mostra um hall de entrada muito espelhada. Ali está sempre alguém escondido na solidão de um balcão esculpido com dragões. Por norma, é Issa Mei que sempre lá está.

Há, depois, umas escadas do lado esquerdo que jamais me atrevo a subir. De frente, um cortinado vermelho, grosso mas trabalhado em cetim. Para lá da cortina é onde tudo acontece. Há uma arena, há armas, há um jogo. Um jogo horrível.

O jogo:

Dois lutadores, sem questões de idade, forma física ou género. Uma arena rodeada de espelhos. Hoje são espelhos, mas outrora seriam pequenas tiras de pano que escondiam quem do lado de lá ia apostando na luta. Ali entra quem quer, luta quem sabe, e agora as coisas são modernas. Há apostas on-line, num mundo muito secreto da internet, e há ainda os mais velhos apostadores que se escondem no conforto por detrás dos espelhos.

Sim, é um jogo de humanos onde só um sai com vida, ou a muito querer que ela não se vá do seu corpo. Começam com uma luta de braços e pernas, depois usam cordas que lhes são oferecidas, seguem-se as barras de bambu, e por fim um duelo de sabres que muito líquido encarnado pode fazer borbulhar no chão de terra seca daquela arena abafada pelo medo. E tudo isto por uma recompensa em dinheiro e algum respeito de algumas ruas daquela cidade. Um medo, sim senhor, que para ali sempre vai.

O meu medo? É que Issa Mei estará prestes a ser protagonista desse maldito jogo.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.