24 de Junho

Portugal é um país singular em muitas coisas.

Umas que o tornam uma referência pela positiva e outras que dele fazem um mau exemplo que não deve ser seguido por a nada conduzir.

O 24 de Junho, dia 1 de Portugal por força de nessa data se ter travado a batalha de S. Mamede, é um exemplo claro, mas paradoxal, da conciliação num único facto daquilo que Portugal tem de melhor e simultaneamente de pior.

De melhor porque nessa data um grupo indómito de guerreiros, liderado por D. Afonso Henriques, fez frente a uma hoste galega em bem maior número e derrotando-a lançou as sementes do que viria a ser um país.

Foi há quase novecentos anos mas desde essa data Portugal nunca desistiu de ser independente, de lutar pelas suas fronteiras perante um vizinho bem mais poderoso, de dar o seu contributo para “dar novos mundos ao mundo” como é comum dizer-se.

E essa luta pela Liberdade, pela independência, pelo direito a ser um país e a escolher os seus caminhos é um exemplo extraordinário.

Mas depois há o reverso da medalha.

Constituído pelo facto de sermos uma Nação que nalguns aspectos não sabe reconhecer os seus valores, não sabe ser grata a quem por ela fez muito, cultiva determinadas formas de inveja e troca prioridades e factos por conveniências politicamente correctas.

Tal como muitos vimaranenses, e não só, sou daqueles que me indigno e indignarei a vida toda pelo facto de Portugal nunca ter querido reconhecer o dia 24 de Junho como verdadeiro dia 01 de Portugal e festejá-lo nessa qualidade com a pompa e a circunstância que lhe são devidas.

Pior.

Portugal (deve ser caso único em todo o mundo…) festeja a reconquista da independência a 01 de Dezembro de 1640, com direito a feriado nacional e tudo o mais, mas não festeja a data da conquista da independência que foi o referido 24 de Junho de 1128.

Festejar a reconquista sem festejar a conquista reconheçamos que é obra.

Mas a não seguir seja onde for.

E por isso contra tudo o que seria justo e defensável assistimos a um país ser ingrato, desde sempre verdade se diga, perante a data da sua Fundação enquanto festeja outras datas que sem ela nunca teriam o significado que tem.

Resta Guimarães.

Onde felizmente temos memória, temos respeito pela nossa História, gratidão pelos nossos fundadores e por isso se festeja o 24 de Junho com o significado próprio e se lhe atribuiu, e muito bem, o estatuto de dia do município.

Devo dizer, e não o faço pela primeira vez, que defendendo a distinção que sucessivos executivos municipais tem dado à data, e a forma como tem procurado valorizá-la ao longo dos anos, estou cada vez mais longe de concordar com os mais recentes programas de comemoração do dia.

Porque os programas, com esta ou aquela variante, são cada vez mais iguais e repetindo-se ano após ano nos seus pontos principais o que lhe retira simbolismo e pouco contribui para acrescentar ao dia a dimensão que seria necessária para o afirmar perante o país em todo o seu significado.

É a missa solene, um carrossel de inaugurações, umas provas desportivas, uma sessão solene recheada de discursos e culminada com o habitual “cesto” de medalhas distribuídas quase irmãmente por quem as merece (e nalguns casos o merecimento é indiscutível) e por quem as recebe ora porque o poder entende que há equilíbrios políticos a fazer ora porque é preciso “medalhar”, e pouco mais.

Não estou com isto a acusar, que fique claro, nenhum executivo em particular porque o modelo é o mesmo há muitos anos.

Mas não posso deixar de pensar, e penso-o há muito tempo, que é preciso encontrar outro modelo de comemoração do 24 de Junho para poder afirmar a data perante o país de forma diferente e consolidar o caminho de a tornar numa efeméride nacional e não apenas concelhia como até hoje tem sido.

Nada tenho contra a missa solene embora num estado laico e em cerimónias oficiais seja no mínimo… discutível, nem contra a realização de provas desportivas que dão uma componente popular à data que não pode ser descurada.

Mas as inaugurações  e as medalhas deviam ser repensadas.

As inaugurações porque dão um ar “parolo” à data, com um cortejo de personalidades a percorrer o concelho e a descerrar placas, remetendo para as nada saudosas “peregrinações” de governantes e do almirante Américo Tomás pelo país , no tempo do antigo regime,a fazerem inaugurações e a suscitarem o agradecimento das populações por algo que nada tinham a agradecer.

Quanto às medalhas, e sem entrar em desnecessários pormenores, acho que a sua atribuição devia ser restrita aqueles que de facto contribuíram para o engrandecimento de  Guimarães de forma notória nas suas actividades profissionais ,comunitárias, desportivas, artísticas e de outros géneros e sejam reconhecidos por isso no concelho de forma evidente.

Acredito que é possível melhorar muito a comemoração do 24 de Junho.

Como acredito que um dia a data poderá merecer a nível nacional a importância e distinção que merece pelo que significa para a História de Portugal.

Num e noutro caso… Haja vontade!

Luís Cirilo Carvalho, 57 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.