A Atitude dos Portugueses perante a Tragédia

O povo português, ao longo de momentos palpitantes da nossa história, assumiu uma responsabilidade coletiva que marcou o nosso destino como Nação.

Politicamente falando, os dois feitos mais recentes, que sem o compromisso popular podiam fenecer na sua origem, foram a Implantação da República e a Revolução dos Cravos.

A conduta popular eufórica e possuída de um genuíno conceito de heroicidade permitiu levar por diante objetivos patrióticos que, sem a determinação do povo simples, não teriam o êxito que se lhes reconhece.

Serve este curto relembrar da história, para justificar a longevidade sentimental da nossa conduta popular, sempre que algo de muito importante ou anormal e trágico toca o coração dos portugueses.

Os protagonistas anónimos, a sua larga maioria e tantos outros, que se organizaram para suprir carências, que sempre surgem num período de grande complexidade trágica, são os seguidores genuínos de gloriosos feitos do passado, agora à dimensão dos horrores do presente que estamos a viver, esporádicos mas violentos, nos seus contornos de dolorosa finitude para tantos.

A comunicação social, honra lhe seja, não o esconde. Ao fazê-lo potencia o que melhor têm os portugueses – a sua generosidade. Assumiu um ato de justiça, sem interpretações de outra natureza, que calam fundo nos nossos concidadãos, sensíveis ao elogio de quem releva a sensibilidade popular.

As entidades que partilham competências específicas e que estiveram, e estão, presentes no auxílio a uma população cansada, envelhecida e de luto interior e exterior, a que a paisagem tragicamente também se aliou, merecem, igualmente, os melhores encómios.

Permito-me dedicar, também, esta singela reflexão, a todos quantos quiseram assumir, sentidamente, a nobre atitude de partilhar aquilo que melhor define a genuína sensibilidade do ser humano.

Para lá desta conduta mais abrangente, um pequeno gesto individual de terceiros funcionará como aconchego, suavizando uma dor, que persistirá individual e coletivamente.

O rescaldo desta tragédia vai dar, infelizmente, lugar àquilo que os cidadãos menos apreciam. Vamos assistir a momentos de disputa quase caricatural que, ao invés de seriamente se abordar o tema, com a dignidade que merece, vai vir ao de cima o verdadeiro porquê de, ao longo de décadas, não ser possível encontrar uma solução, que todos sabem ser urgente e difícil de por em prática. Esta será necessária para desanuviar a tensão que, ano após ano, atinge populações mais isoladas e os portugueses em geral.

Senhores Deputados entendam-se. Votem uma proposta de duradouro suporte temporal, por ser extremamente difícil a resolução de tão ingente problema. Se o fizerem encontrarão o bálsamo para as vossas consciências e o eleitorado (pois é nisso que estão a pensar) saberá reconhecer um serviço prestado ao país, obrigação maior que vos foi cometida pelos eleitores, na hora em que vos concederam a sua confiança. Se o não fizerem, desmerecerão das vossas responsabilidades e os portugueses dificilmente perdoarão àqueles (sejam eles quais forem) que não considerem, como exigência primeira, o bem comum.

O país está primeiro. Em tragédias como esta, tudo o mais é secundário.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).