A Romaria Grande de São Torcato (Passado, Presente e Futuro)

Ponto prévio: Sou natural de Azurém, nascido voltado para o Castelo da Fundação. Fui criado no local mais bonito de Portugal, até ver: Santa Marinha da Costa (a caminho do alto da Penha). A minha família é originária, em doses quase iguais, de Rendufe (Guimarães) e de Fafe.

Os meus Pais escolheram São Torcato para assentar arraiais, há mais de trinta anos. Não sou Torcatense por inteiro (também porque sou de todo o lado e de lado nenhum), mas há uma costela (ou calcanhar, vá lá, porque é mais apropriado para o caso) que a essa Terra me liga.

São Torcato é, garbosamente, e por direito próprio (conquistado ao longo dos anos), a Rainha da Cultura Popular de Guimarães. É um local extraordinariamente marcado pelo folgar, pelo folclore: pela tradição. Como há tempos escrevi, numa outra publicação, “Se o Minho fosse um ‘corpo’ feito de jóias, São Torcato seria, seguramente, um dos seus brincos”.

Nos meus ouvidos, se me concentrar, vive ainda a música oriunda do peito e das mãos do Senhor João Martins, Sineiro, chamando os devotos para a Missa ou para a(s) Festa(s). A Arte do Sino (tocado manualmente), perdida que está no Tempo, era uma das bandas-sonoras da minha meninice: Recordo o ‘Hino de Guimarães’, no fim da (para mim) ‘tortura’ da missa dominical.

Conheço bem São Torcato. Quis conhecer São Torcato. Dei-me ao trabalho de conhecer São Torcato. A Terra e o Homem. Primeiro, contra a vontade: era forçado a assistir à missa (como escrevi em cima, ‘tortura’) de Domingo (a das 10:30). Depois, por curiosidade. Aquele Senhor numa urna, de bispo vestido, com aspecto de quem tinha passado muito tempo ao sol, ‘semeava’ muitas questões na minha mente de criança. Da Missa passei para tudo o que existia à volta (como é o caso do toque dos sinos).

Para me calar (e para me entreter), o meu Pai levou-me à loja de recordações que existe numa das partes laterais do Mosteiro e ofereceu-me um livro sobre a vida de São Torcato.

É importante referir que, quando pequenito, ia à Romaria, mas não sabia o que era ‘a’ Romaria, nem por que razão se fazia. Aliás, o meu Pai e o meu Avô Paterno corriam todas as Romarias que havia. Um fartote! Eu era, muitas vezes, o ‘reboque’.

Olhando para aquele tempo, nas décadas de 80 e 90 do século XX, a Romaria Grande de São Torcato tinha uma dimensão assinalável, mas longe do que já fôra noutros tempos, realidade essa que apenas percebi através de (muita) leitura.

A Romaria Grande de São Torcato, que se celebra no primeiro fim-de-semana de Julho, desde 1852 (ano da trasladação do corpo do Santo da Igreja Velha para o Novo Templo), já havia sido apelidada de “Maior Romaria do Minho”, rivalizando em aparato com a da Senhora da Agonia (Viana) e com a do São João (Braga). Outros tempos.

Segundo o Coronel António Quadros Flores, na sua obra ‘GUIMARÃES na última quadra do Romantismo’, “a principal era a de São Torcato (…) e antes das Gualterianas desempenhava o papel de Festas da Cidade”.

Há um painel de azulejos patente na lindíssima estação de São Bento, no Porto, que retrata a Romaria Grande. Por aqui se atesta a fama da celebração. Em tempos áureos, o cartaz da Romaria foi elaborado pelo famoso artista Rafael Bordalo Pinheiro.

A fama da Romaria trazia peregrinos de toda a parte, e o afamado fogo-de-artifício era uma das grandes atracções. No dizer do Coronel “No arraial acordavam estremunhados os que eram de longe, sem terem miradouro de onde vissem comodamente, e desejavam deslumbrar os olhos com o famoso fogo de São Torcato, e levar para a terra a notícia das novidades pirotécnicas dos fogueteiros de Viana, que à compita exibiam as suas especialidades.

(…) Duas, Três horas da manhã acabava tudo e aquela mó de gente começava a debandar (…) Os Palheiros, rua de Santo António e Toural eram um rio de gente continuamente até altas horas da manhã.”

Elucidativo, não?

É claro que os tempos mudaram, e que não são sequer comparáveis as realidades, a oferta, enfim, todo um conjunto de circunstâncias e vicissitudes. Contudo, e aproveitando as referências ao São João de Braga e à Senhora da Agonia, feitas pelo Coronel Flores, é com tristeza que se conclui, facilmente, que a Romaria Grande de São Torcato ainda não chegou ao Século XXI, ao contrário dessas duas Festas (que souberam, através dos seus agentes e forças vivas, reinventar-se).

É bem notório que a Romaria Grande, que já foi a principal Festa da Cidade de Guimarães, vem definhando.

O que fazer? Não tenho soluções milagrosas (o Santo não sou eu), mas tenho, sem pretensiosismo, algumas ideias, ou, na melhor das hipóteses, pontos de vista:

– Adaptar a Romaria aos tempos que correm;
– Profissionalizar, actualizar, um possível Roteiro turístico da Vila;
– Dotar a Romaria Grande de profissionalismo, estética (a ideia de entregar o grafismo ao Professor Vasco Carneiro é extraordinária, mas falta colocá-la em relevo, porque cartazes A3 não são solução) e comunicação eficaz;
– Ter, como cabeça de cartaz, um grande nome (musical ou não) que possa atrair jovens e menos jovens;
– Coordenar, ao mesmo tempo, Romaria Grande e Feira da Terra (ambas ganhariam, de todas as formas); acertar agulhas com a Câmara Municipal de Guimarães (a vários níveis, sobretudo evitando sobreposição de eventos); Desenvolver ideias para um cortejo histórico/etnográfico, ou recriações nos diversos pontos da Vila (que apelem à singularidade de São Torcato enquanto Vila/Povo); 

Na bica da Fonte de São Torcato, cuja água tinha fama de milagrosa, costumava o povo fazer os seus rituais de purificação: lavar a cara, pernas e braços, em dias de romaria. Só os mais velhos o farão, hoje em dia. Creio ser essa uma metáfora muito assertiva daquilo que nos é dado a assistir, nos tempos que correm.

Para concluir, uma provocação:

Em virtude das obras do Mosteiro se terem arrastado por muitos anos, correu pelo povo (ainda correrá?) a crença de que as mesmas não poderiam nunca acabar. Se tal viesse a suceder, o Santo seria levado para Braga. Para quê? – Pergunto eu.

Na Idade Média faria sentido (e esteve para acontecer, no século XVI), por causa das esmolas. Agora, não.

As obras terminaram, felizmente, e o Santo continua (e continuará) naquela que é a sua ‘morada’ desde há muitos séculos, mas… e se deixar de haver Romaria (Grande)*?

Paulo César Gonçalves, Dramaturgo

NOTA: Por expressa decisão do Autor, este texto não se encontra redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

*Que não caiamos na indignidade da extinção, como foi, de resto, o caso da Romaria do São Tiago da Costa (em Santa Marinha da Costa).